Dalva Agne Lynch (Sarah)

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English version after the Portuguese one


Amor na melhor idade 7 – Amor ou ridículo?

 
 
 
O tempo que passara em San Nazario havia causado uma revolução total em suas ideias e seus sentimentos. De alguma maneira, a grandiosidade do panorama e o histórico de bravura e tragédia da região foram, para ela, como um portal de entendimento de si mesma.
 
No último dia, passeando pela cidadezinha, fora se despedir de uma mulher que conhecera durante aquelas duas semanas.
 
Maria era mais ou menos da sua idade, dona de uma pequena loja de conveniência. Ela tinha quatro filhos já crescidos de seu primeiro casamento, e uma filha no início da adolescência de seu segundo. Enquanto falavam, um homem jovem, nos seus 30 anos, entrou na loja, sorriu para a mulher e lhe deu um beijo no rosto.
 
“Se alguém me procurar, estou lá no fundo analisando as faturas, Maria.”
 
Maria acariciou seu rosto com carinho, e ele se foi pela porta atrás do balcão.
 
“É um de seus filhos?”
 
“Não”, riu Maria. “É meu esposo.”
 
Ela queria que o chão se abrisse e a engolisse, e ficou sem palavras para se desculpar. Maria percebeu.
 
“Não se preocupe. Já estamos acostumados a esse tipo de coisa. Eu fiquei viúva quando tinha 50 anos, a 15 anos atrás, com quatro filhos e o negócio para cuidar. Era muito duro e eu me sentia muito solitária. Ricco apareceu aqui com uns amigos, para comprar cigarros e cerveja, e me encontrou sentada naquela cadeira, chorando. Começamos a conversar, e ele voltou muitas vezes depois disso. Uma coisa leva a outra, e nós nos apaixonamos... Estamos casados desde então. A Catarina é nossa filha. E já sei o que você quer saber: qual a idade dele.”
 
Apesar de embaraçada, ela aquiesceu.
 
“Ricco tinha 20 anos na época, só dois anos acima de meu filho mais velho. Tem 35 agora.”
 
“E vocês... Vocês não têm problemas com a diferença de idade? Com diferenças de interesses, de ideias?”
 
“Ele me fez mais jovem nos meus interesses, e eu o fiz mais maduro em suas ideias. O mais importante é que conversamos muito sobre todas as coisas, e ele é uma pessoa muito responsável e amorosa. E eu aprendi a não ser inflexível nas minhas opiniões.”
 
Num impulso, ela contou sua história a Maria. “Mas eu fiquei apavorada ao me apaixonar, porque não acreditei que alguém tão jovem pudesse se interessar por mim. E quando descobri todas as suas mulheres, fiquei me perguntando a razão pela qual se aproximara de mim. Não sou nem jovem, nem bonita... Meus amigos disseram que ele era um gigolô. E eu acreditei.”
 
“E ele era mesmo?”
 
“Não sei. Nunca vou saber. Só sei que possui uma coleção aparentemente interminável de mulheres, a grande maioria de mais velhas. Não encontro outra resposta.”
 
“Talvez ele goste de mulheres mais velhas, querida”, riu Maria. “Ricco era assim. Não se interessava por mulheres mais jovens. Dizia que elas eram cabeças-ocas.”
 
 Ela voltou para casa lentamente, pensando.
 
Quando se dera conta de estar se enamorando daquele homem, recusou-se a reconhecer o que sentia. Em seu blog, postara uma crítica ao relacionamento de pessoas mais velhas, especialmente mulheres, com parceiros bem mais jovens. E aquilo fora o estopim da explosão que se seguira. Ela intitulou seu texto “Entre o amor e o ridículo”:

“Morro de pena. Sim, pena do/da pobre idiota já idoso/a que acredita, ou finge acreditar, que é amado/a por um/a companheiro/a bem mais jovem. Incomoda-me saber que essas pessoas, sejam elas homens ou mulheres, sejam tão egocêntricas e petulantes a ponto de acreditar que seus consortes mais jovens não estarão, na maior parte do tempo, comparando seus corpos envelhecidos e decrépitos com os corpos jovens e belos de pessoas de sua própria idade, e permaneçam no relacionamento por simples ganância ou publicidade. Chamo isso de ‘passar vergonha’. Ou de falta de classe.

Deixando de lado o casal homem-mais-velho-mulher-mais-jovem, que é antigo como a Criação, o que me interessa aqui, já que sou mulher, é o oposto.

Sim, talvez haja relacionamentos nos quais a mulher é muito mais idosa, e ainda assim funcionem. O mais belo, pelo menos para mim, foi o de Edith Piaf e Theo Sarapo. Após a morte da cantora, o mundo inteiro esperava que ele se tornasse alguma espécie de playboy, desfrutando a notoriedade e a fortuna que herdara, mas não foi assim. Ele faleceu aos 34 anos, não muito depois dela, ainda fiel e de coração partido. Mas eles foram uma exceção. Afinal, Edith Piaf era uma exceção a quaisquer regras.

Meninas, podem vociferar à vontade: a menos que seu relacionamento seja absoluta e totalmente baseado no espírito, você está se expondo ao ridículo. Não adianta vestir-se como se tivesse 30 anos, pensando que tem pernas e busto e braços para isto, porque você não tem.

Enquanto isso, pense no quanto seu companheiro pode estar comparando você com as lindas meninas de sua própria idade. Ou, se ele for mau caráter (porque é incrível a atração que o mau caráter exerce nas mulheres da minha idade), ele provavelmente estará rindo de você com seus amigos, mesmo se a ama, porque terá vergonha de estar se relacionando com você.

Ora, somos belas, não importa a idade. Merecemos ser amadas, idolatradas, receber presentes e carinho. Não precisamos recorrer ao ridículo. Sejamos elegantes, perfumadas, divertidas. Alimentemos nosso espírito, nossa mente, nossa alma. E o amor virá, sem que precisemos nos expor à vergonha. E se não vier, que aprendamos a virtude e a beleza da solidão. É dela que as mais preciosas obras se originam.”
 
Ele havia lido seu texto e respondera: “Tomei meu chá de vergonha”. E desapareceu por um longo tempo.
 
“O que eu fiz?”, pensara ela. E, dentro de si, teve início aquela longa e dolorosa batalha entre razão e emoção, preconceito e sensibilidade. Uma batalha inútil, porque, ao reaparecer, ele não era mais o mesmo. Ou talvez apenas estivesse retornando ao que realmente era, e o que realmente sentia. E aparentemente rira com os amigos sobre seu patético e insignificante flerte “com aquela louca”, como a namorada dele lhe havia contado. Ou teria ela mentido?
 
Agora, sentada à janela da linda casinha aos pés das montanhas Dolomitas, ela pensou em Maria e Ricco. No beijo carinhoso que ele lhe dera. Na mão já envelhecida de Maria, acariciando seu rosto jovem.
 
“Eu estava errada”, pensou. “Fiz um julgamento baseado na minha decepção e vergonha. Nem todos os homens se aproveitam das fraquezas e da solidão de uma mulher mais velha só para se divertir às suas custas, ou para tirar proveito. Há aqueles que verdadeiramente se apaixonam.”
 
Num impulso, abriu seu Ipad e deletou aquela entrada do seu blog.
    
“Se ele tivesse sido aquilo que pensei que era, aquilo que criei, ou seja, um homem sensível e íntegro, um artista batalhador, eu teria engolido minhas ideias e preconceitos, e me atirado em seus braços. Como Maria...”
 
Ela sentiu uma pontada em seu íntimo. De decepção, de vergonha, de pesar. “Não enterrei você fundo o suficiente, meu amor. Você está de volta...”



English Version
 
 
Love at the best age 7 – Love or ridicule?
 

 
 
The time she´d spent in San Nazario had caused a complete revolution on her ideas and feelings. Somehow, the grandeur of the panorama and the history of bravery and tragedy of the region had been for her like a portal of understanding about herself.
 
Walking around town on her last day, she had gone to say goodbye to a woman she had made friendship with during those two weeks.
 
Maria, the owner of a small convenience store, was about her age. She had four grown children from her first marriage and a preteen daughter from her second. As they talked, a man in his thirties arrived, smiled at the woman and kissed her cheek.
 
“Maria, if anyone comes looking for me I´m at the back examining the invoices.”
 
Maria caressed his face with affection and he left through a door behind the counter.
 
“Is he one of your sons?”
 
“No”, laughed Maria. “He´s my husband.”
 
She wished the floor would open and swallow her. She couldn´t find words to apologize and Maria noticed it.
 
“Don´t worry about it. We´re used to this kind of thing. My first husband passed away 15 years ago when I was 50, leaving me with four children and the business to take care of. It was very hard and I was extremely lonely. One day Ricco showed up here with some friends to buy cigarettes and beer and found me sitting in that chair there, crying. We started talking and he came back many times after that. One thing leads to another and we fell in love. We´ve been married ever since and Catarina is our daughter. And I know what you want to ask me: how old is he.”
 
She nodded though embarrassed.
 
“Ricco was 20 at that time, just two years older than my eldest son. He´s 35 now.”
 
“And you… Don´t you have problems with the age difference? With differences of interests and ideas?”
 
“He made me younger in my interests, and I made him more mature in his ideas. Most importantly, we talk a lot about everything, and he is a very responsible and loving person. And I learned not to be inflexible in my opinions.”
 
On impulse she told her story to Maria. "But I was terrified of falling in love, because I couldn´t believe anyone so young could care about me. And when I discovered about all his women I wondered why he approached me. I'm neither young nor beautiful... My friends said he was a gigolo. And I believed."
 
“And was he?”
 
“I don´t know. I guess I´ll never know. All I know is that he has a seemingly endless collection of women, the vast majority of older ones. I can´t find another explanation.”
 
"Maybe he likes older women, honey" laughed Maria. "Ricco was like that. He wasn´t interested in younger women. He said they were shallow."
 
She walked back home slowly, thinking.
 
When she realized she was falling in love with that man she refused to acknowledge it. In her blog, she posted an entry criticizing relationships of older people, especially women, with much younger partners. She called her entry "Between love and ridicule", and it triggered the explosion that followed. The entry said,
 
“I feel sorry. Yes, I feel sorry for the poor old fool who believes, or pretends to believe, he/she is loved by a partner very much younger. It bothers me to know that those men and women are so self-centered and petulant as to ignore that most of the time his/her younger consort will be comparing his/hers aged and decrepit bodies to the bodies of all those young and beautiful people their own age. Worst of all, that they remain in the relationship by sheer greed or publicity. I call that shamelessness. Or a total lack of class.
 
Setting aside the older-man-younger-woman scenario, which´s as ancient as Creation, what interests me here is the opposite, since I´m a woman.
 
Yes, there are relationships in which the woman is much older and it works. For me, the most beautiful of them was that of Edith Piaf and Theo Sarapo. After the death of the singer, the entire world expected he´d become some kind of a playboy, enjoying the notoriety and money he had inherited, but it was not so. Brokenhearted and still faithful, Sarapo passed away at the age of 34 not long after Piaff. But they were an exception. After all, Edith Piaf was an exception to any rules.


Girls, you can bawl at will: unless your relationship is absolutely and totally based on the spirit, you are exposing yourself to total ridicule. There´s no use dressing up like you´re 30, thinking you have legs, boobs and forearms for it, because you don´t.
 
Meanwhile, think about how your partner might be comparing you to all those gorgeous girls his own age. Or worse – if he is a scoundrel (and it's amazing how women my age can be attracted to scoundrels), he´d probably be making fun of you with his friends even if he does love you, because he´d probably be ashamed of being with you.
 
Well, we're beautiful, no matter how old we are. We deserve to be loved and adored. We deserve to be showered with gifts and affection. We don´t have to resort to ridicule. Let´s be elegant, perfumed, classy, fun. Feed our spirits, your minds, our souls – and love will come without us having to expose ourselves to ridicule. But if not, let us learn the virtue and beauty of solitude. It´s from it that the most precious works of Art come from.”
 
He had read her entry and answered, “I took the hint about shamelessness.” And he was gone for a long time.

"What have I done?", she thought. And that long and painful battle between reason and emotion, prejudice and sensibility began. A useless battle, because when he came back he was no longer the same. Or maybe he was just returning to what he really was, and what he really felt. And apparently he had laughed with his friends about his pathetic and insignificant flirt "with that madwoman", as his girlfriend had told her. Or had she lied?

Now, sitting at that beautiful house´s window, at the foot of the Dolomites, she thought of Maria and Ricco. In the tender kiss he'd given her. In Maria's aged hand, caressing his young face.
 
“I was wrong”, she thought. “I made a judgment based on my disappointment and shame. Not all men take advantage of the weaknesses and loneliness of an older woman just to have fun or to take advantage. There are those who truly fall in love.”
 
On impulse, she opened her Ipad and deleted that entry from her blog.
 
“If he had been what I thought he was, that means, what I´ve created – a sensitive and upright man, a struggling artist, I´d have swallowed up my ideas and prejudices, and I´d have thrown myself into his arms. Like Maria…”
 
She felt a pang of disappointment, shame and regret. “I didn´t bury you deep enough, my love. You are back..."
 


 Capítulos de "Amor na melhor idade":

1 - O Início - The Beginning
http://www.dalvalynch.net/visualizar.php?idt=5796098

2 - Transformação - Transformation
http://www.dalvalynch.net/visualizar.php?idt=5828297

3 - A Rival - The Rival 
http://www.dalvalynch.net/visualizar.php?idt=5832665

4 - Vergonha - Shame
http://www.dalvalynch.net/visualizar.php?idt=5853797

5 - À Beira da Piscina - By the pool
http://www.dalvalynch.net/visualizar.php?idt=5854619

6 - O Campo de San Nazario - The Camp of San Nazario
http://www.dalvalynch.net/visualizar.php?idt=5885000  

7- Amor ou ridículo? - Love or Ridicule?
http://dalvalynch.net/visualizar.php?idt=5888217

8 - Solidão - Loneliness
http://dalvalynch.net/visualizar.php?idt=5892472

9. Amor na era do medo
http://dalvalynch.net/visualizar.php?idt=5896710

10. Despedidas
http://dalvalynch.net/visualizar.php?idt=5911689

11. Desfecho
http://www.recantodasletras.com.br/escrivaninha/publicacoes/editor.php?acao=ler&idt=5959256&rasc=0
Dalva Agne Lynch
Enviado por Dalva Agne Lynch em 21/01/2017
Alterado em 18/04/2017
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