Dalva Agne Lynch (Sarah)

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English version after the one in Portuguese


Amor na melhor idade 6 – O Campo de San Nazario

 
 
 
Terminou que ela não foi nem a Roma, nem tampouco a Florença. As duas cidades, com todas as suas belezas, sua Arte e atrações, seriam apenas uma continuação de Paris e suas frivolidades. Ou seja, tudo não passava de uma fuga. E ela estava cansada de fugir, porque não importava para onde fosse, continuava a carregar dentro de si aquilo do qual fugia.
 
Através de um casal de amigos, alugou uma casinha na minúscula cidade de San Nazario, aos pés das montanhas Dolomitas, na Província de Vicenza, Itália. A casa tinha dois séculos de existência, com pequenas janelas de madeira pesada e enormes ferrolhos, das quais lindas flores se debruçavam, apesar do frio, para a estreita rua tortuosa de pedras antigas lá embaixo. As paredes eram rústicas, os móveis pesados e escuros. Os únicos aposentos que haviam sofrido modernizações eram o banheiro e a cozinha, sem que afetasse o ambiente antigo. A banheira de quatro pés, situada abaixo da janela, combinava perfeitamente com o resto da casa, ainda que todo o encanamento fosse moderno. Ela largou as malas na cama de cabeceira trabalhada, pegou sua nécessaire, e foi mergulhar em um banho de espumas perfumadas, depois de servir-se de uma taça de delicioso vinho prosecco.
 
Sentiu seu corpo relaxar na água perfumada e deu um suspiro de puro deleite. Talvez ali, naquele cenário de contos-de-fadas que escondia, na verdade, contos de terror, ela poderia enterrar seu pesadelo de mentiras e engodos. Ao fechar os olhos, contudo, a primeira imagem que lhe veio à mente foi aquele corpo moreno e forte, mergulhado nas espumas junto ao seu. Deixou a imaginação tomar conta, esquecendo que estava ali para... esquecer.
 
Abriu os olhos de repente, irritada consigo mesma. Ela não permitiria que ele a seguisse naquele pedacinho esquecido do mundo! A vulgaridade das emoções e pensamentos dele não combinava com nada do que tinha agora ao seu redor. Quer dizer, nem com a beleza do lugar, nem com a seriedade do terror de outras eras.
 
Na verdade, para ela, aquele era um local para se reconstruir. Um lugar para transformar tudo o que fosse dolorido e terrível em algo belo, sublime, inspirador. Talvez, se ele tivesse sido aquilo que ela mesma criara, ou seja, um artista sensível, um homem de pensamentos profundos, alguém que buscava algo mais além de prazeres sensuais momentâneos, ela poderia se permitir continuar a levá-lo consigo. Mas a realidade era outra, e ela cansara de inutilidades e vazio.
 
“Elevo meus olhos para os montes...” Pelos vidros antigos da pequena janela, ela podia vislumbrar a majestade das montanhas Dolomitas contra um céu azul e branco. “É isso o que busco. Beleza e grandiosidade.” Aquele homem era pequeno demais para seu mundo, mesquinho demais para seus sonhos, por mais que seus sentidos o chamassem. Ela não seria a primeira, tampouco a última, a abrir mão dos sentidos em nome de algo maior.
 
Depois de algum tempo, levantou-se, secou-se e, depois de todo seu ritual de cremes, maquiagem e perfume, saiu à rua em direção às montanhas. Aquelas belas montanhas, que haviam sido o cenário de tanto sofrimento a mais de 75 anos atrás.
 
Uma das razões pela qual escolhera aquela cidadezinha fora justamente sua desconhecida história nos anais da Segunda Guerra Mundial. Ainda em Paris, ela descobrira um estudo feito por um antigo empregado municipal de San Nazario, Eugene Bell, e sentiu-se como que levada até lá.
 
San Nazario fora o cenário de um dos chamados “Internatos de Guerra” dos nazistas, onde militares inimigos eram levados para trabalhos forçados, uma vida de fome e de privações e morte, em tudo semelhante ao que ocorria nos demais Campos de Concentração do resto da Europa. Só que ali todos os “internos” eram militares. E não, não eram meros “prisioneiros de guerra”. Eram vítimas dos Campos de Concentração Nazistas.



Prisioneiros do Campo de Concentração de San Nazario, 1943
 
Dizia Bell em seu artigo: “A alguns anos atrás, o prefeito de San Nazario me pediu para que fosse com ele à Prefeitura de Vicenza, para a cerimônia de entrega de uma medalha a um antigo militar internado no Campo. A curiosidade me levou a ler a respeito, e descobri que tal honra fora concedida por uma lei nacional. Pensei então que, se aquela pessoa tinha as características necessárias para um tal reconhecimento, por seguro deveria haver outras. Comecei a buscar nos Arquivos do Estado, e consegui pedir a concessão da medalha para mais de 50 internos, ou seus herdeiros. De todos eles, os sobreviventes podiam ser contados nos dedos de uma só mão.” (“Internatto di San Nazario”, Eugene Bell)
 
“Aquilo é o verdadeiro sofrimento”, pensou ela. “Aquilo é real. O que sinto é mera frivolidade.”
 
Perante a grandeza daquelas montanhas, aos pés das quais tantos homens bravos haviam perecido, ela sentiu seu coração se esvaziar de toda emoção negativa. “Não posso continuar a amar alguém a quem jamais poderia respeitar. E não posso respeitar a quem não respeitou nem reconheceu a dádiva que lhe concedi – a dádiva de mim mesma, do meu corpo e meu espírito.”
 
Sentou-se na grama seca, os olhos levantados para as montanhas. “Aqui enterro meu amor por você, meu querido. Um amor tão belo e corajoso quanto os homens que aqui pereceram, tentando fazer um mundo melhor.”


Ao seu redor, o vento frio soprava, levando consigo vozes do passado.

 
 
English version:
 
 
Love at the best age 6 – The Camp of San Nazario
 
 
 
In the end she didn´t go neither to Rome nor Florence. Both cities, with all their beauties, their Art and attractions would be only a continuation of Paris and its frivolities. That means, everything was just an escape. And she was tired of running away, because no matter where she went, she´d carry within herself everything she was running away from.

 
Through some friends she rented a small house in the tiny little  city of San Nazario, at the foot of the Dolomite Mountains in the Province of Vicenza, Italy. The house was two centuries old, with small windows of heavy wood and huge bolts, from which beautiful flowers grew towards the narrow tortuous street of ancient stones below in spite of the cold. The walls were rustic, the furniture heavy and dark. The only rooms that had undergone modernization were the bathroom and kitchen, without affecting the old environment. The four-footed bathtub was a perfect match for the rest of the house, though all the plumbing was modern. She dropped her bags on the crafted bedside table, picked up her nécessaire and submerged herself in a perfumed bubble bath after pouring herself a goblet of delicious prosecco wine.


She felt her body relax in the perfumed water and let out a sigh of pure delight. Maybe there, in that fairy-tale settings which in truth hid tales of terror, she´d be able to bury her nightmares of lies and deceit. As she closed her eyes, however, the first image that came to her mind was that of his strong golden body submerged in her bubbles by her side. She let her imagination take over, forgetting she was there to… forget.


She opened her eyes suddenly, annoyed at herself. She wouldn´t allow him to follow her in that little forgotten piece of the world! The vulgarity of his emotions and thoughts did not match anything around her. Not with the beauty of the place, or with the sobering terror of other ages.


In fact, that was a place of reconstructing. A place to turn everything that was painful and terrible into something beautiful, sublime, inspiring. Perhaps if he had been what she herself had created, that is, a sensitive artist, a man of deep thoughts, someone who sought something else beside instant sensual pleasures, she could allow herself to continue taking him with her. But reality was very different and she had grown tired of uselessness and emptiness.
 
“I lift up my eyes unto the hills...” Through the ancient panes of the tiny window she could
see the majesty of the Dolomite mountains against a blue and white sky. "And that's what I seek. Beauty and greatness.” That man was too small for her world, too insignificant for her dreams, no matter how her senses yearned for him. She was not the first neither will be the last to give up her feelings in the name of something greater.


She got out of the bathtub after a bit, dried herself up and proceeded to follow her whole ritual of creams, makeup and perfume. And then she walked towards the mountains. Those beautiful mountains which had been the scenario for so much suffering more than 75 years ago.
 
One of the reasons she had chosen that little town was exactly because of its unknown history in the annals of World War II. While still in Paris she had uncovered an essay by Eugene Bell, a former municipal employee of San Nazario, and felt herself been drawn to the place.
 
San Nazario had been the scenario for one of the Nazis´so-called "War Internees", where enemy soldiers were taken to forced labor, a life of hunger and deprivation and death, much similar to what happened in other Concentration Camps around Europe. But there all the "inmates" were military personnel. And no, they weren´t mere "prisoners of war." They were victims of the Nazi Concentration Camps.
  


Prisoners at the San Nazario Concentration Camp, 1943
 
Said Bell in his essay, “Some time ago the mayor of San Nazario asked me to go with him to the Prefecture in Vicenza for the awarding of a medal to a former military man interned in the Camp. Curiosity led me to read about the subject and I found that a national law had granted that award”. Added Bell, “I then thought, if that person had the needed characteristics for this recognition, surely there would be others. I began searching through the State Archives and was able to apply for the same award to over 50 internees or their heirs. But the survivors could be counted on the fingers of one hand.” (“Internatto di San Nazario”, Eugene Bell)

 
"That's true grief," she thought. "That's real pain. What I feel is mere frivolity."
 
Before the greatness of those mountains, at whose feet so many brave men had perished, she felt her heart being emptied of all negative emotions. "I can´t keep on loving someone I could never respect. And I can´t respect someone who didn´t respect nor recognized the gift I had given him – the gift of myself, my body and my spirit."
 
She sat on the dry grass, eyes lifted to the mountains. “This is where I´ll bury my love for you, my dear. A love as beautiful and courageous as the men who here have perished trying to make a better world."
 
All around her the cold wind blew, carrying voices from the past.
 

 Capítulos de "Amor na melhor idade":

1 - O Início - The Beginning

http://www.dalvalynch.net/visualizar.php?idt=5796098

2 - Transformação - Transformation
http://www.dalvalynch.net/visualizar.php?idt=5828297

3 - A Rival - The Rival 
http://www.dalvalynch.net/visualizar.php?idt=5832665

4 - Vergonha - Shame
http://www.dalvalynch.net/visualizar.php?idt=5853797

5 - À Beira da Piscina - By the pool
http://www.dalvalynch.net/visualizar.php?idt=5854619

6 - O Campo de San Nazario - The Camp of San Nazario
http://www.dalvalynch.net/visualizar.php?idt=5885000  

7- Amor ou ridículo? - Love or Ridicule?

http://dalvalynch.net/visualizar.php?idt=5888217

8 - Solidão - Loneliness
http://dalvalynch.net/visualizar.php?idt=5892472

9. Amor na era do medo
http://dalvalynch.net/visualizar.php?idt=5896710

10. Despedidas
http://dalvalynch.net/visualizar.php?idt=5911689


11. Desfecho
http://www.recantodasletras.com.br/escrivaninha/publicacoes/editor.php?acao=ler&idt=5959256&rasc=0


 
Dalva Agne Lynch
Enviado por Dalva Agne Lynch em 17/01/2017
Alterado em 18/04/2017
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