Dalva Agne Lynch (Sarah)

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English translation after the Portuguese original
 
 
 
Carta de uma judia a um jornalista
 
 
Amigo,
 
Hoje você publicou um artigo sobre a evolução do homem, e teceu conclusões a respeito da liberdade do mundo atual.  Provavelmente seus leitores concordarão com você. Eu discordo.
 
Veja bem: a evolução mental, espiritual e física do homem ocorre em espiral, não de uma forma linear vertical como você afirmou, enquanto tecia predições e dava conselhos sobre o que se pode fazer a respeito. Quer dizer, a humanidade retorna, vez após vez, aos mesmos posicionamentos do passado.
 
Ora, com o tempo, todas as civilizações caíram por terra, mudaram, se revolucionaram. Civilização após civilização passou por transformações intelectuais, sociais e espirituais, e essas mesmas transformações causaram seu desaparecimento.
 
E enquanto tudo isso se passava, através dos séculos e dos milênios, um desprezado grupo de indivíduos nunca mudou. Sua cultura, suas crenças, seus costumes, continuaram os mesmos.
 
Nós, judeus, continuamos os mesmos, ainda quando o mundo ao nosso redor estava caindo aos pedaços. Estagnados, diz você. Retrógrados. Será?
 
Você diz que todas as civilizações evoluíram, enquanto nós permanecemos no passado. Contudo, o mundo perde sua juventude, em meio a tantas assim-chamadas liberdades, enquanto nós passamos às nossas aqueles costumes e aquela cultura que você considera "retrógradas", aquelas crenças "fora da realidade", aqueles costumes "restringentes" à liberdade sexual, liberdade cultural, liberdade social.

Contudo, nossa juventude, acossada e sob bombardeios vocais e reais, continua. A juventude "moderna" está perdida no vácuo de "ismos" e "istas", sem nem ao menos compreender tudo o que esses “ismos” e “istas” professam.
 
Não, meu caro. O mundo e sua preciosa liberdade social, cultural e sexual, sua banalização dos sentimentos maiores em favor da liberdade total de valores,  está, outra vez, fadado à extinção.
 
E quando a poeira baixar, nós ainda estaremos em pé. Com nossos surrados livros, nossos costumes retrógrados, nossas músicas religiosas.

Junto com essa era cairão também aqueles dentre nós que se deixaram levar pelos "ismos" e "istas". Esses são os kapos, os traidores, e essa é a verdadeira limpeza étnica, feita por mãos maiores que as humanas. Quem pertence aos séculos, perece com os séculos. Quem pertence ao que é eterno, é eterno.
 
​Mudando um pouco de assunto, alguns dias atrás, em uma crônica de cunho mais pessoal, você afirmou que é livre como um pássaro de quaisquer amarras. Meu caro, você jamais será livre como um pássaro, se seu conceito de liberdade não incluir a consciência de que amizade e amor não são elos constringentes, mas abrangentes; não são grades, são horizontes.  

E você nunca voará alto, se confundir a adulação e a bajulação de seus leitores com amizade, e uma noite de sexo sem compromisso com amor. Afinal, as mais belas asas são as do coração.​
 
Sei que você respeita nossas tradições e crenças milenares, mas jamais as confessaria, jamais publicamente as defenderia, porque elas não são do agrado de seu público. Pois eu lhe digo que as abrace. Que tenha a audácia de defendê-las. Assim, quando o peso do mundo derrubar todos os conceitos políticos, sociais e religiosos de nossa época, você ainda estará em pé.

E talvez esse seja o único posicionamento verdadeiramente revolucionário que há, meu amigo. Aliar-se ao que é eterno, mesmo se você precisar ir contra todas as ideias e os modismos políticos, sociais e culturais de seu tempo. Pense nisto...

 
 
 
English translation
 

 
Letter from a Jewess to a Newsman
 
  
Friend,

 
 
You´ve published today an article about the evolution of man, and drew conclusions about the freedoms of our present world. Your readers will probably agree with you. I don´t.
 
See, man´s spiritual, mental and physical evolution is spiral. It´s not vertical and linear as you´ve stated as you drew predictions and advices on what should be done about it. What I mean is that humankind returns time and time again to the same the same situations and positionings.
 
Well, every civilization fell with the passing of time. They changed, revolutionized. Civilization after civilization went through intellectual, social and spiritual transformations and those same transformations have caused its fall.
 
And while all of this went on through the centuries, the millennia, a despised group of people never changed. Its culture, beliefs and values continued to be the same.
 
We Jews were the same even when the world around us was falling apart. Stagnant, you said. Retrograde. Are you sure?
 
According to what you said, all civilizations evolved while we remained in the past. However, the world loses its youth among so many of your so-called freedoms, while we pass on to ours all those values and thoughts you consider “retrograde”, those “out of touch with reality” beliefs, all those values that are “restrictive” to sexual, cultural and social freedoms.
 
But our harassed youth, bombarded by vocal and real attacks, keeps on. Your “modern” youth is lost in the vacuum of “isms” and “ists”, not even understanding what those “isms” and “ists” are all about.
 
No, my dear. The world and its precious social, cultural and sexual freedoms, its trivialization of the highest feelings for a total freedom from values is again doomed to extinction.
 
And when the dust settles, we´ll still be standing. With our bedraggled books, our retrograde values, our religious songs.
 
Together with this era, all those among us who let themselves be drawn by the “isms” and “ists” will also fall. Those are the kappos, the traitors, and that´s the true ethnic cleansing, made by higher hands than human´s. Whoever belongs to the centuries will perish with the centuries. Whoever belongs to what is eternal will be eternal.
 
Changing the subject a bit, a couple of days ago you´ve stated in another article that you are as free as a bird from any ties. My dear, you´ll never be free as a bird if your idea of freedom exclude the realization that friendship and love aren´t constricting ties but embracing ties; they aren´t bars of a prison but new horizons.
 
And you´ll never fly high if you take your readers´ adulations and flatteries as friendship and a night of casual sex as love. After all, the most beautiful wings are the wings of our hearts.
 
I know you respect our millennial traditions and beliefs but will never confess it, will never publicly defend them, because your readers wouldn´t like it. But I tell you to embrace them. I tell you to have the courage to defend them. In that way you´ll still be standing when the weight of the world throws to the ground all political, social and religious concepts of our times.
 
My friend, maybe that´s the only truly revolutionary stand there is. To join what´s eternal even if you have to go against all the political, social and cultural fads of your time. Think about it…
 
 
 
 
 

 
 
Dalva Agne Lynch
Enviado por Dalva Agne Lynch em 06/12/2016
Alterado em 07/12/2016
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