Dalva Agne Lynch (Sarah)

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Carta de Alforria

₢Sarah D.A. Lynch


Eu costumava ser uma pessoa livre - desligada de opiniões, dona do meu nariz, independente em todos os sentidos. Depois de tantas clínicas, e de ter que psicológica, financeira e emocionalmente me reerguer do nada, passei a viver sob uma carência de similitude. Não carência afetiva, veja bem - mas uma carência de "pertencer".

 
Antes de sucumbir ao peso das Guerras e das atrocidades, meu judaísmo não precisava de ninguém. Era eu e Hashem em meio ao mundo, e muito obrigada. Como Israel. Depois, ao retornar à vida, senti essa necessidade ridícula de outros que se assemelhassem a mim.

Hoje acordei subitamente para a realidade de que NÃO HÁ outros que se assemelhem a mim. Que nunca houve. Que, como minha parte racional já sabia, minha "mente diferente" e meus instáveis arroubos emocionais nunca seriam aceitos em nenhum grupo social, político ou religioso. Bom - como Israel.

Outra coisa que descobri hoje é que ser-se sincera e honesta não pesa coisa alguma na balança da aceitabilidade, e essas são as únicas coisas estáveis dentro de mim. O resto é turbilhão.

Então hoje, agora mesmo, neste instante, declaro minha independência de quaisquer grupos humanos. Estarei entre vocês, sem ser uma de vocês. Não aceito suas máscaras de respectabilidade, atrás das quais se escondem o engano e a mentira. A traição e a falta de amor. A ganância e a arrogância. A lascívia e o egoísmo.

Sim, eu também possuo tudo isto dentro de mim em certa medida (todo ser humano possui) - só que não uso máscaras. E esta é a diferença, e esta é a barreira entre meus semelhantes e eu. Talvez eles vejam em meus arroubos suas próprias faces, e se aterrorizem. Querem parecer perfeitos.

Fiquem pois com suas máscaras de respectabilidade. Eu fico com minha loucura. O mundo que Hashem criou é uma loucura inexplicável, então por que eu precisaria me explicar ao mundo? Outra vez como Israel - a mera existência de Israel é uma loucura, por que deveria se acomodar ao mundo? Então hoje rezo por mim, e rezo por Israel.

Como escrevi certa vez em um poema, muito antes de sucumbir ao peso das Guerras e das atrocidades - coisas sobre as quais vocês falam com autoridade, mas nunca experimentaram. Seus pais sim. E eu também.

Tu, Hashem
Me encaras.
Sou a Arte
Que criaste.

E esta é a única similitude sem a qual não posso viver. Como Israel.


 
Dalva Agne Lynch
Enviado por Dalva Agne Lynch em 26/08/2016
Alterado em 22/05/2018
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