Dalva Agne Lynch (Sarah)

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Vehi She´Amda – Esta é a promessa
 
© Sarah D.A.Lynch
 
 
Durante os dias de Pesach (2016), ouvi (ou li nas redes sociais) inúmeros amigos e conhecidos judeus falando sobre ‘ter fé em D´us’ para a salvação do mundo, a salvação do Brasil, a salvação de Israel, de amados, de si mesmos.
 
A coisa é que Judaísmo não é só uma religião de fé; é uma religião de certezas. Por que você acha que recontamos a história inteira do Êxodo na Pesach? A história de Ester em Purim? A história de Gênese em Rosh HaShanah? A vitória dos Macabeus e os oito dias de maravilha em Channukah?
 
Contamos essas histórias para que as pessoas e as crianças nunca se esqueçam do que D´us é capaz. Para que elas saibam que, se Ele fez aquelas coisas no passado, Ele com certeza fará tudo também no presente e no futuro. Não é “tenha fé em D´us”; é “Ele fez, então por seguro fará outra vez”.
 
Contudo, há requerimentos, severos requerimentos, para que D´us aja em favor de Seu Povo. Não adianta você rezar “Hashem, por favor, faça isto ou aquilo”, enquanto segue alegremente seu caminho, ignorando totalmente os preceitos da Halachah – as Leis judaicas.
 
Durante meu crescimento, e depois como jovem adulta, eu tinha uma vaga e inquietante ideia disso tudo, e que deveria haver uma boa razão pela qual minhas orações subiam até o teto, e daí caíam outra vez sobre mim, sem efeito algum. Foi apenas quando o desespero de saber que não havia nada, absolutamente nada, que as Leis e ações humanas pudessem fazer para libertar meus filhos, raptados por um grupo radical de cristãos gnósticos, que descobri qual era essa razão.
 
Veja bem: rebelde e feminista, eu havia, por toda minha vida, rejeitado as Leis judaicas como sendo arcaicas, machistas, inúteis e ridículas. Buscando por um poder sobrenatural que funcionasse onde o poder humano falhara, meti-me em toda espécie de coisas. Finalmente, movida por alguns livros que lera, resolvi buscar por uma comunidade ortodoxa que pudesse me clarificar, e encontrei um jovem rabino de apenas 23 anos que, de maneira simples e bem clara, explicou-me sobre a diferença entre “ter fé” e “ter certeza absoluta” – e o preço de ter suas rezas ouvidas pelo Eterno.
 
As Leis judaicas que concernem à mulher são bem mais simples que as dos homens. Tudo o que eu havia criticado no passado começou a se dissipar. Convivendo com famílias ortodoxas mostrou-me que aquelas mulheres não eram de modo algum submissas ou inferiores. Elas eram cheias de opiniões e versadas em coisas nas quais as mulheres “lá fora” nem chegavam a se interessar. Mas em público ou na presença de meros conhecidos, elas permaneciam caladas. Cabeças cobertas. Obedientes.
 
É claro que fiz perguntas – e recebi respostas. Não havia internet naquela época, então meu rabino me emprestou livros, indicou-me outros. Passei a gastar minhas tardes, enquanto as crianças estavam na escola, na Livraria Sêfer, folheando livros e comprando os que me pareciam esclarecedores. À noite, a TV permanecia desligada, e eu lia, lia noite adentro.
 
O difícil foi fechar a boca. Sempre fui muito vocal em minhas ideias, e ouvir os homens na sala ao lado discutindo coisas que me interessavam, enquanto tinha que permanecer onde estava, discutindo receitas e cuidado dos filhos e moda com as outras esposas, começou a me irritar. Mas permaneci onde estava.
 
Então aconteceu. Numa noite escura e chuvosa, quando já fazia doze anos que meus filhos haviam sido sequestrados, meu desespero atingiu um limite de vida e morte. Coloquei meus dois filhos pequenos na cama e fui rezar. Não, não fui rezar. Fui batalhar com D´us. Levantei-me, mãos abertas à altura dos ouvidos e da boca – “cinco contra cinco, com a circuncisão da língua de entremeio” – e citei (eu tinha memória fotográfica) Isaías 49 inteiro. E daí rezei. Como Moisés, quando contendeu com D´us (Êxodo 32:32).
 
“Hashem, eu sou Israel. Vindica-me, de acordo com Tuas próprias palavras! Mas se não me vindicares, apaga meu nome do livro que escreveste!”.
 
Não vou entrar em detalhes sobre o que fiz a seguir – mas a Kabbalah não é apenas um livro de estudos. É também um livro de ação. Eu havia estudado por meses o Sêfer Yetzirah, e aprendera em detalhes o ritual de libertação do Povo. Eu não era homem, obviamente não possuía uma minian, e aquele ritual os requeria. Mas permaneci firme no que clamara: “Hashem, eu sou Israel!”
 
Duas semanas mais tarde recebi a primeira carta, depois de doze anos de silêncio, do meu filho mais velho, escrita no exato dia que se seguira à noite em que dissera a D´us para apagar meu nome de Seu livro, ou resgatar meus filhos. Duas semanas mais tarde, eles fugiram daquela seita e voltaram para casa.
 
E por que estou contando tudo isso?
 
Estou contando tudo isso porque afirmei lá em cima que Judaísmo não é apenas uma religião de fé. É uma religião de certezas – e de obediência. Estou lhe dando fatos que provam isto.
 
 Mais tarde afastei-me outra vez das Leis, devido à minha mente se ter esvaído com a ida de meus filhos para o Afeganistão, e depois para o Iraque. Foi só depois de seu retorno, e cinco anos de tratamento, que voltei a ser racional. E outra vez questionei D´us sobre a razão de ter destruído minha família, e levado meus filhos à guerra. Recebi a resposta enquanto dormia. Despertei com uma frase bem clara na cabeça: “Eles não são seus filhos.”
 
E entendi. Os Desígnios de meus filhos estavam nas mãos de D´us, e não cabia a mim questionar o que Ele fazia na vida deles. Cabia a eles percorrer o caminho.
 
Foi então que comecei o árduo caminho de retorno. Nada de fé. Certeza. Nada de implorar por mim, por meus filhos, por meus amigos. Recitar o que Ele fizera no passado, sabendo que o faria outra vez. Ajuda muito ter a maioria dos Salmos memorizada, e muitas rezas dos Sidurim. Ou, se você tem problemas memorizando, como eu agora tenho, leia-os. Outra vez, não sou homem e não tenho uma minian – mas EU SOU ISRAEL. E não há uma só pessoa que possa levantar seu pedante nariz e duvidar disto, porque meus Desígnios não lhes pertencem.
 
E por que estou falando sobre mim? Para “aparecer”?
 
Não. Estou falando sobre mim porque você não precisa ficar tentando ter fé de que D´us vai responder aos seus rogos.  Busque por provas de que Ele responde. Testemunhos que estão não apenas em antigos relatos bíblicos, mas na História de Israel, e na história de vida de outros judeus. Leia livros de autores que passaram por lugares apertados, e Hashem lhes veio em ajuda. Há centenas deles nas livrarias judaicas online. Informe-se. Fortaleça sua batalha para obedecer preceitos que talvez você nem entenda. Afinal, você não precisa entender. Siga-os, e a compreensão virá.
 
Pare de fazer orações inúteis, rogando e chorando. Reze os Salmos. Reze as promessas de Isaías. Abra seu Sidur e leia. Estude. Memorize. E obedeça.

 
“Que Hashem te abençoe e te guarde. Que Hashem faça seu rosto brilhar sobre ti e ser generoso contigo;  que Hashem volte seu rosto para ti, e te conceda paz.” (Números 6:24)
 

“E esta é a promessa que sustentou nossos pais e a nós
Que não é apenas um inimigo
Que se levantou contra nós para nos destruir
Mas que em cada geração há aqueles
Que se levantam contra nós para nos destruir.
Mas o Santo, Abençoado Seja Ele,
Nos salva de suas mãos."
(Cantiga para Pesach)
 

 
Dalva Agne Lynch
Enviado por Dalva Agne Lynch em 26/04/2016
Alterado em 18/04/2019
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