Dalva Agne Lynch (Sarah)

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O ORGULHO - Uma Viagem Interior

© Dalva Agne Lynch


O que fez o Anjo da Luz cair das alturas? Pensar que era melhor do que era. Ele não queria refletir Yehida - a Luz Divina. Ele pensava que ERA Yehida, por refleti-la. Ele se via não como um reflexo da grandeza divina, mas a própria grandeza divina.

Ele caiu por orgulho - pensar de si mais do que era, mais do que o Divino e seu esforço pessoal o fez ser.

E quem é esse Anjo Caído? Ah, eu o conheço muito bem. Vejo sua face todos os dias, no fundo do espelho.

Todos nós somos, ainda que potencialmente, um reflexo da Luz pensando que é a Luz. O orgulho é a pior faceta de nosso lado escuro, aquele que devemos vencer, conquistar, derrotar - para que a grandeza do nosso eu verdadeiro possa brilhar, com toda a glória de ser reflexo de Yehida - a Luz da Divina Criação.

Mas seria todo orgulho errôneo? De modo algum. Isto ocorre porque chamamos de orgulho o que na verdade vem a ser algo bem diferente.

Primeiro, não só podemos amar a nós mesmos, mas somos comandados a fazê-lo: "ama o próximo como a ti mesmo", disse o Cristo. Ele não disse: "ama o próximo MAIS do que a ti mesmo.". Disse: "TANTO QUANTO a ti mesmo". Isso pressupõe, portanto, por análise lógica, que devemos amar a nós mesmos.

"Mas que homem algum pense mais de si mesmo do que deve", disse Paulo. E aí é que está a diferença. Amar e respeitar aquilo que somos não é um direito que temos, mas um dever. É isto que foi criado pelo Eterno, e que nós lapidamos através de aplicar os talentos que se nos foram confiados. Temos o dever de amar e respeitar o nosso eu, porque aquele que não ama a si, não ama a obra divina, e portanto não consegue amar seu semelhante.

Mas que nunca amemos tanto a nós mesmos, que pensemos que somos melhores do que somos: onde sou melhor que tu, em outro ponto és melhor do que eu. Onde fica, então, o orgulho?

Somos, todos nós, partes de um todo, reflexos uns dos outros, espelhos nos quais podemos observar nossas falhas e nossas qualidades. E se refletimos uma falsa luz, somos filhos das trevas. Se refletimos a luz da verdade, somos filhos desta Luz.

ORGULHO FÍSICO

À primeira vista, dir-se-ia, talvez: ah, mas deste eu estou livre: não me considero fisicamente perfeito... Que erro se comete! Posso me orgulhar de algo que possua, posso me orgulhar de ser de tal ou tal cor, de tal ou tal raça, de tal ou tal país. Posso me orgulhar de falar diversas línguas, de minha profissão, de minha herança familiar, de meus créditos.

Mas se sou todas estas coisas, por que não posso me orgulhar delas?

Porque nenhuma delas me faz ser melhor do que tu és. Se me orgulho de ser judia, isto implicaria em que um goy (não-judeu) seria menos do que eu. Se me orgulho de meu país, isto implicaria em que o teu país é inferior. Se me orgulho de ser pintora, isto implicaria em que qualquer um que não pinte seja, de alguma forma, deficiente.

A figura que me olha do fundo do espelho talvez refletisse um ser do qual eu me orgulho: mas meu orgulho seria por todas as razões erradas.

Que o ser humano valente, após sair das chamas de um incêndio com uma criança nos braços, se orgulhe de seu momento de heroi: ele é, naquele momento, um deus. Ele tem direito de subir em uma nuvem de glória ao assento do Infinito.

Mas, passado o momento, ele volta a ser o mesmo ser humano de antes. E sempre poderá, é claro, olhar com um orgulho merecido para aquele momento no qual subiu além de sua mera condição de ser humano, para a condição de salvador. E chorar na divina humildade de ser capaz de participar, por um momento que fosse, da grandeza Divina. Porque o orgulho devido, o orgulho que se nos é permitido sentir, reflete-se perante o Poder Maior como humildade: por um momento, eu fui como Tu, ó Criador, e fui um deus.

Caso ele utilize isto para pensar que é melhor do que seus semelhantes, e contar proezas em uma roda de bar, na atitude de "olha só que maravilha eu sou, alguém aí pode se comparar a mim?" - isto será orgulho abjeto, fruto da ignorância do que somos na realidade.

Orgulhar-se indevidamente por qualquer coisa neste mundo físico é estultícia. Tudo é passageiro, tudo é ilusório, e se nos pode ser tirado com um mero sopro da Vontade Maior.

"Vaidade das vaidades, diz o Pregador: vaidade das vaidades, tudo é vaidade." (Eclesiastes 1:2) O livro inteiro de Eclesiastes é um discurso sobre a vaidade do orgulho - seja ele físico, moral ou espiritual.

ORGULHO MORAL

Voltemos ao exemplo de nosso heroi, que cruzou as chamas de um incêndio para salvar uma criança. Isto faria dele um ser superior? Talvez, no momento do fato.

Mas o que o faria realmente superior seria o fato de nunca ele olhar para aqueles que NÃO penetraram nas chamas, e NÃO salvaram a criança, pensando: "Eu sou melhor do que tu."

O orgulho moral é ainda pior do que o orgulho físico ou material. Pensar que mereço mais por ser mais. Pensar que sou mais puro ou mais certo.

C.S.Lewis é um escritor que se voltou ao espiritual bem tarde na vida. Seus livros não "pregam": eles ensinam. Em uma coleção de livros para crianças, "As Crônicas de Nárnia", ele escreve sobre um guerreiro inimigo que lutou com coragem e amor. Que se dedicou com pureza e fervor - à causa errada.

Depois da batalha final pelo Reino, ele se descobre no céu. "Mas eu não pertenço aos Teus filhos", ele diz. "Eu nem mesmo acredito em Ti. Eu lutei pelo outro lado, e perdi..."

Mas Aslam, o Leão, que é o símbolo do Criador nas "Crônicas", responde ao guerreiro: "Cada vez que alguém faz um ato correto para o Inimigo, ele o faz para Mim. Cada vez que alguém faz um ato desprezível para Mim, ele o faz para o Inimigo. Tu viveste corretamente o que creste: tu pertences a Mim. Seja bem-vindo à Terra de Aslam."

Onde está o orgulho nesta vitória? O guerreiro perdeu a batalha - mas venceu a guerra. Na sua humildade ("eu não mereço estar aqui"), ele conquistou seu lugar junto aos que venceram.

Assim funciona a humildade moral. Toda vez em que eu me sinto "correto" o suficiente para apontar meu dedo acusador ao que "peca", estou, eu também, "pecando". Disse o Cristo à multidão que queria apedrejar uma mulher pega em adultério: "Quem de vós estais sem pecado, que atire a primeira pedra". Ninguém o fez. Todos eram culpados. E ele se voltou à mulher, e a perdoou.

Cada um daqueles apedrejadores poderia ter sido um Cristo, e perdoar. Mas eles perderam a bênção - e nós recebemos a lição.


ORGULHO ESPIRITUAL

Olha o mapa mundial: quantas guerras estão, agora mesmo, acontecendo no mundo, porque cada homem crê que sua fé é a única, a certa, a ponte para o Eterno? Onde pára a lista das guerras por orgulho espiritual?

"Meu deus é melhor do que o teu. Minha fé é a correta. Tu vives na mentira". Estas são as palavras do orgulho espiritual. EU estou certo. Tu estás errado.

Tendo vivido situações horrendas advindas de questões religiosas, este assunto me atinge de frente: perdi meus filhos porque alguém achou que seu deus e sua crenças eram as corretas, e que eu não merecia educá-los por não pertencer à mesma fé.

Talvez meus filhos e eu tenhamos sofrido o inimaginável. Mas aprendemos o inestimável: na verdade, o certo é sempre medido pela capacidade que temos de amar e perdoar. Errado é aquele que se considera certo a tal ponto, que se vê como um ser superior - e sua capacidade de aceitar, trabalhar jundo, perdoar e continuar à frente se esvai.

Enquanto nos mantivermos certos de estarmos certos, mas dispostos a aceitar outras pessoas, outras ascerções e filosofias, e discutir e aprender com elas, estamos livres do maior de todos os defeitos e problemas que afligem o homem: o orgulho espiritual. É quando nos tornamos inflexíveis e odiosos, que caímos nesta desgraça.

Que cresçamos em amor e aceitação, perdão e compreensão. Mesmo que, para isto, precisemos passar pelo "vale das sombras da morte" - o deserto escuro da alma.

Nosso Poder Maior nos protegerá - e, do outro lado do Vale, estará a Luz magnífica da sabedoria.
Dalva Agne Lynch
Enviado por Dalva Agne Lynch em 27/06/2007
Alterado em 05/10/2010
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