Dalva Agne Lynch (Sarah)

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Amigos, o conto abaixo não é de maneira nenhuma autobiográfico. Essa história veio a mim porque minha gatinha de 18 anos foi diagnosticada com câncer, mas não tem relação nenhuma com a minha vida real. A música de fundo é criação do artista Eugênio Cony Faria Cidade, de Brasília.
 
 
DESCARTÁVEL
 
©Dalva Agne Lynch
 
 
 
Ela vivia sozinha com seu cachorro. Os dois já estavam velhinhos e tinham problemas para caminhar e para enxergar, mas iam levando a vida.
 
Ela havia criado três filhos, enquanto costurava para fora, dava aulas de reforço escolar e de piano. O marido se fora cedo, com alguém mais jovem e sem o fardo de filhos.
 
Agora os filhos estavam todos crescidos e encaminhados na vida, e ela não conseguia mais trabalho. Todos só queriam empregar pessoas mais jovens.
 
No dia do seu aniversário, os três filhos se reuniram para cortar o bolo que ela fizera.
 
“Vai demorar muito?”, perguntou o filho mais jovem, estudante de engenharia. “Eu tenho jogo de futebol.”
 
“É, eu também não posso ficar”, retrucou a filha, formada em arquitetura. “Tenho hora marcada com um cliente.”
 
“E eu tenho que me preparar para uma audiência”, terminou o mais velho, que era advogado. “Anda logo com isso.”
 
Ela acendeu as velas rapidamente e todos cantaram o parabéns.
 
“Não apague a luz, não vê que estou no telefone?”, disse o filho mais velho. 
 
“É, não apaga que estou enviando um texto”, disse o filho mais jovem.
 
“Pra quê apagar a luz?” perguntou a filha.
 
Ela cortou o bolo e começou a distribuir as fatias.
 
“Estou de regime”, disse a filha.
 
“Estou com pressa”, disse o filho mais velho.
 
“Não posso comer antes de treinar”, disse o filho mais jovem.
 
Ela colocou as fatias de volta na travessa, deu um beijo em cada um, e eles cruzaram a porta de saída. Ela estava a ponto de fechá-la, quando ouviu o diálogo.
 
“Que saco... e vocês não ajudam em nada, né”, disse o mais jovem.
 
“Eu pago a comida e as contas da casa”, disse o mais velho.
 
“Eu compro roupas e remédios”, disse a filha.
 
“Gente velha é um estorvo” – terminou o filho mais jovem.
 
Murmurando “é mesmos”, todos entraram em seus respectivos carros e se foram. Ela fechou a porta devagarinho e foi guardar o bolo. Depois pegou seu cachorrinho no colo e se sentou na poltrona da sala, pensando.
 
No fim-de-semana seguinte, o cachorrinho adoeceu.
 
“É câncer”, disse o veterinário.
 
“Ele vai morrer?”, perguntou ela.
 
“Agora não. Talvez ele viva um ano, talvez até dois, com bons cuidados.”
 
Feliz de ainda ter seu cachorrinho, ela foi para casa e telefonou para os filhos para dar a notícia.
 
“Manda matar”, disse o mais velho. “De agora em diante, vai ser só gasto, e eu não vou pagar.”
 
“Manda matar”, disse a filha. “Eu lhe dou outro cachorro, um que não dê trabalho pra ninguém.”
 
“Manda matar”, disse o filho mais jovem. “Cachorro velho é só um estorvo.”
 
Ela desligou e se sentou na poltrona da sala, abraçada no seu cachorrinho, pensando.
 
No fim-de-semana seguinte, o filho mais jovem ligou para os outros dois.
 
“A mãe não responde o telefone”, disse ele.
 
“Não me responde também”, disse a filha.
 
“É só pra nos encher o saco”, disse o filho mais velho.
 
No meio da semana, o filho mais velho ligou para os demais, e todos os três foram à casa da mãe, para ver qual a razão dela se negar a responder o telefone.
 
“Ela só está fazendo birra porque não ficamos no dia do aniversário”, disse o filho mais velho.
 
“Mas eu tenho a minha vida pra cuidar, não posso estar perdendo tempo com isso”, disse a filha.
 
“Gente velha é um estorvo”, disse o filho mais jovem.
 
Apertaram a campainha, mas ninguém respondeu. Nem o cachorro latiu.
 
“Eu vou embora”, disse o filho mais velho. “Se ela quer encher o saco, que encha o saco sozinha.”
 
“É, eu também”, disse a filha.
 
“Não, vamos perguntar à vizinha”, disse o filho mais jovem. “Talvez ela esteja lá, falando mal de nós.”
 
Mas a vizinha disse que não via a senhora há mais de uma semana, e aconselhou que eles abrissem a porta para ver se não havia acontecido algo.
 
“Acho que não aconteceu nada. Ela só está nos enchendo o saco”, respondeu o filho mais velho.
 
“É, e eu tenho que voltar ao escritório”, disse a filha mais velha.
 
O filho mais jovem hesitou. “Não, vamos abrir a porta.”
 
Tiveram que quebrar a fechadura, mas abriram a porta.
 
“Mãe? Mãe, você está em casa? Responde e pare de se fazer de vítima!”, disse o filho mais velho.

Mas ninguém respondeu.
 
“Mãe? Que droga, mãe, eu tenho mais o que fazer!”, disse a filha.
 
“Ela está aqui no quarto”, chamou o filho mais jovem.
 
Eles a encontraram deitada na cama, abraçada ao seu cachorrinho, cercada de vidros vazios de remédio.  
 
Havia apenas um bilhete na mesa de cabeceira.
 
“Sinto muito ter sido um estorvo para vocês. Agora vocês estão livres. Sejam felizes! Com muito amor, Mamãe.”
 
Eles se entreolharam.
 
“Que egoísmo! Ela não pensou em nós?”, disse o filho mais velho.
 
“Ela sempre pensou mais nela mesma do que na gente”, disse a filha.
 
“Que saída covarde! Só covardes fazem isso”, disse o filho mais jovem.
 
Durante o velório, os três se sentaram juntos, cada um com seu celular.
 
“Estou no velório da minha mãe”, escreveu o filho mais jovem. “Vejo vocês no treino hoje à noite, não vai demorar aqui.”
 
“Preciso tirar uma semana de folga porque minha mãe faleceu”, escreveu o filho mais velho. Em seguida ligou para a agência de viagens e comprou duas passagens para passar uma semana na praia com a namorada.
 
A filha ligou para um corretor de imóveis. “Quanto tempo leva para vender a casa da minha mãe?”
 
Os agentes funerários colocaram as cinzas dentro de uma urna, mas nenhum dos filhos quis se encarregar da disposição delas.
 
“Gente velha é um estorvo”, disse-lhes um dos agentes funerários.
 
Daí eles jogaram a urna, com cinzas e tudo, na lixeira da esquina.
 

 
 
 
Dalva Agne Lynch
Enviado por Dalva Agne Lynch em 19/05/2014
Alterado em 19/05/2014
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