Dalva Agne Lynch (Sarah)

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Pasargada

(Original in English after the Portuguese version)


© Dalva Agne Lynch


“Vou-me embora pra Pasargada
Lá sou amigo do Rei…”
Manuel Bandeira



Quando o degelo começou, fui passear à beira do lago, para ver os patos voltando, em formação de V, depois de haverem fugido do inverno. Dave segurava minha mão, e Joseph sentava no seu carrinho. O sol brilhava na água cheia de blocos de gelo, e o V perfeito dos patos cortou o céu de repente. Eles deslizaram suavemente pelo horizonte, e pousaram com graça na água fria. Observei sua volta ao lar, pensando em David. Quando David retornaria?

Ao chegarmos ao trailer, o aquecimento central estava desligado. Nos meus devaneios, havia esquecido de deixar a água da pia pingando, para evitar o congelamento dos canos. Eles haviam se tornado longos blocos de gelo. Reacendi o aquecedor, e coloquei os meninos na cama para uma sesta. Busquei pelo secador de cabelos e uma extensão elétrica, e saí outra vez.

Secador em punho, deslizei, deitada de barriga para cima, sob o trailer. Sim, ali estava o problema. Os canos haviam se congelado. Liguei o secador, e comecei, polegada por polegada, a descongelá-los. Continuei nisso até ouvir o som esmaecido de Joseph, acordando da sesta. Desliguei o secador e voltei ao trailer.

Minhas mãos estavam queimadas pelo frio. Pequenas bolhas haviam crescido na pele. Olhei para meus dedos vermelhos e inchados, e comecei a chorar. Onde estava David? A despensa estava quase vazia. Dave precisava urgente de mais remédio para a bronquite. Eu olhei a imensidão branca, fora da janela pequena do trailer, enfeitada com a cortina xadrez amarela e marrom, esperando. Sonhando com uma casinha no meio da neve, perto do lago, com uma lareira acesa, pipocas explodindo, as crianças com espaço suficiente para correr e brincar – e David. David, com seus olhos azuis e suas longas mãos brancas, sentado perto do fogo, lendo.

Eu estava usando um avental com um grande bolso em forma de coração, preparando a janta. Um bebê na caminha de madeira crua no canto da sala, brincando com as próprias mãozinhas. O cheiro de frango assado e torta de maçã enchendo o ar, já perfumado com folhas de eucalipto, colhidas das árvores ao fim do quintal. Pela janela da cozinha, posso ver a montanha cheia de neve, e o bosque de eucaliptos e pinheiros se estendendo até o céu acinzentado de inverno. Amanhã teremos neve.

David ri com os meninos na sala, brincando de Super-homem. Happy, nossa cadela golden retriever, brinca com um osso de mentirinha, fazendo grunhidos de prazer. Carrego uma bandeja de prata com canecas de chocolate quente, e pratinhos de torta de maçã recém saída do forno.

Mas isso não existe. Nem o lago frio do fim de inverno em New Jersey, nem a casa das montanhas em upstate New York. Os meninos são homens agora, sonhando em ser soldados. Eu fabrico sonhos com palavras. O bebê cresceu – longos cabelos e lindos olhos azuis desvanecidos no nevoeiro da ausência.

David é só uma lembrança –cabelos brancos, rosto envelhecido e cansado, longas mãos emaciadas, manchadas pelos anos. David ficou velho longe de mim. Não vi os anos inexoravelmente marcando seu rosto e seu corpo. Não abracei seu cansaço e seus sonhos.

Confunde-me a lembrança de uma casa ao pé da montanha, com uma lareira de fogo brilhante, na frente da qual David se senta e lê histórias para os meninos. Uma cozinha onde eu cozinho algo mais do que palavras e cenas de tempos mortos. Meu tempo de realidade, quando sonhar ainda é sonhar com que cor de cortinas combina o novo sofá da sala.

Olho o cinza de uma cidade estranha, cujo horizonte são prédios sujos, e busco, no céu cinza de poluição, o movimentos de asas de patos em formação de V. Busco sonhos rotos de uma casa ao sopé de uma montanha de eucaliptos, com janelas para os bosques.

Há uma goteira embaixo de uma das pias da cozinha. Laurinha, a empregada, interrompe meu trabalho para reclamar. Desço ao térreo para ver o estrago. Minha cozinha toda branca, com detalhes pretos, moderna e funcional. Há água por toda a parte. Secamos a confusão com panos limpos. Volto ao computador, e esqueço o problema da pia.

Olho para minhas mãos sobre o teclado, sem bolhas e sem vermelhidão. Longas unhas manicuradas. De repente recordo, e bate essa coisa estranha aqui dentro, que pode ser dor, que pode ser indigestão. Claro, nunca seria saudades. Não dos golpes e desencantos, não de um trailer em meio à neve, nem de minha pequena casa ao sopé da montanha, cheirando a bosque e a torta de maçã.

De repente, em outro mundo, David outra vez senta-se frente à lareira de minha sala, e visto um avental com um grande bolso em forma de coração. Nas folhas de minha história, na nação de minha mente, tudo é real, tudo é outra vez presente.


English Version:

PASARGADA

                     “I´m going to Pasargada
                    Where the king is my friend…”

                    Manuel Bandeira


When the snow began to melt, I took a walk by the lake, to watch the ducks coming back home in a V formation, after having fled South for the winter. Dave held my hand, and Joseph sat on his stroller. The sun shone on the water full of ice, and the ducks' perfect V suddenly cut the sky. They gently glided, and landed gracefully on the icy water. I watched their homecoming, thinking about David. When would David come back home?

When we arrived at the trailer, the central heating was off. Lost in my daydreamings, I'd forgotten to leave the water dripping in the faucet, to keep the pipes from freezing. They'd become long blocks of ice. I relit the central heating, and put the children down for a nap. I looked for the hairdryer, an extension cord, and went out again.

                    With the hairdryer in my hand, I slid on my back under the trailer. Yes, that's where the problem was. The pipes had frozen. I turned the dryer on, and began to defrost them, inch by inch. I kept on until I heard the faint sounds of Joseph's whimpering, as he woke up from his nap. I turned the hairdryer off, and went back into the trailer.

My hands were chaffed by the cold. Tiny boils had grown under my skin. I looked at my red swollen fingers, and I began to cry. Where was David? The pantry was almost empty. Dave urgently needed more cough medicine. I looked at the huge space of white snow outside the trailer's window, through the brown and yellow checkered curtains, and I waited. I dreamed of a little house in the snow by the lake, with a fire burning in the fireplace, popcorn popping, the children with enough space to run and play... and David. David, with his big blue eyes and his long white hands, seating by the fire, reading.

I wore an apron with a big heart-shaped pocket, as I cooked dinner. A baby in the rough wooden crib on the corner of the livingroom. The smell of roast chicken and applepie filling the air, already scented by the eucalyptus leaves, picked from the trees at the edge of the garden. Through the kitchen window, I can see the snow -covered mountains and the eucalyptus forest going up the mountain, to the gray winter sky. Tomorrou we'll have snow.

David laughs with the boys in the livingroom, playing Superman. Happy, our black retreaver, plays with a bone, making noises. I carry a silver tray with mugs full of hot chocolate, and plates with wedges of applepie fresh from the oven.

But this - this doesn't exist. Neither the cold lake in New Jersey, by the end of a long winter, nor the small cabin in the woods in upstate New York. The boys are men now, dreaming of being soldiers. I weave dreams with words. The baby is grown - long hair and beautiful blue eyes, hidden by the mist of time and distance, never to be seen again.

David is just a memory - gray hair, an old and tired face, long wrinkled hands, spotted by the years. David grew old away from me. I didn't see the years inexorably marking his face and his body. I didn't hold in my arms his weariness and his dreams.

I get confused by the memories of a little house by the mountains, with a bright fireplace, in front of which David sits and reads stories to the children. A kitchen where I cook things other than words and scenes of bygone times, the times of reality, when dreaming meant to dream with what color of curtain goes with the new livingroom couch.

I see the grey of a foreign city, where the horizon is made of tall dirty buildings, and I search the grey polluted skies for the flutter of ducks' wings in a V formation. I search broken dreams of a little house by the mountains, with windows open to the forest of scented eucapyptus trees.

There's a leak under one of my kitchen sinks. Laura, the maid, interrupts my work to tell me about it. I get down to the kitchen to check the problem. My white and black kitchen, fashionable, comfortable. There's water everywhere. We dry the mess with clean cloths. I go back to my pc, and forget the leak.

I look at my hands on the keyboard, free from boils and red spots. Long manicured nails. Suddenly I remember, and there's this funny feeling here inside, a pain, or maybe indigestion. Of course, it can't be a yearning for something lost. Not for the blows and disillusions, nor for the absence of a small trailer in the midst of the snow, nor the dream of a tiny little house by the mountains, with the scent of eucalyptus and applepie.

Suddenly, in another world, David is again seating by the fireplace in the livingroom, and I wear an apron with a big heart-shaped pocket. In the pages of my story, in the nation of my mind, all of this is real, all of this is once again my present now. 


                 

                   
                   


 
Dalva Agne Lynch
Enviado por Dalva Agne Lynch em 05/05/2007
Alterado em 05/01/2015
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