Dalva Agne Lynch (Sarah)

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Contos da Ditadura Militar I
(do livro "Antologia Rebra II")
 
© Dalva Agne Lynch
 
 
Não me lembro muito bem de minha infância, mas certas coisas a gente nunca esquece. Pois o fato que se segue ocorreu em Porto Alegre, durante a Ditadura Militar.

Leonel Brizola, então governador do Estado do Rio Grande do Sul, recém havia sido cassado, juntamente com todo o seu gabinete, do qual meu pai, que era Chefe da Contadoria do Estado, fazia parte. Eu estava no terceiro ano primário.

Dona Edite, minha professora, absolutamente não me suportava. Claro, com a minha boca...

Pois então, era dia de prova oral de História do Brasil, e todo mundo estava tremendo na cadeira, esperando a vez de ser chamado ao quadro-negro (coisa que, hoje em dia, nem existe mais). Dona Edite foi chamando um por um:

- Maria da Graça, escreva no quadro quem descobriu o Brasil!

A Maria da Graça escreveu, e ganhou dez.

-  Glória, escreva o dia da Independência do Brasil!

A Glorinha escreveu, e também ganhou dez.

Daí chegou a minha vez:

- Dalva, escreva a letra do Hino Nacional!

Eu me levantei, peguei o giz... e parei. Intrigada, perguntei à professora por que cargas d’água as questões das outras meninas eram fáceis e curtas, enquanto que a minha era enorme e complicada. Dona Edite me mandou calar a boca e escrever. Ora, não deu outra:

- Ah, é? Pois eu acho que a senhora tá fazendo isso só porque o pai da Maria da Graça é doutor, o da Glória é general, e o meu foi cassado por esta merda de Ditadura!

Fui parar na secretaria. Mas, ainda assim, escrevi a letra do Hino Nacional todinha em um pedaço de papel. Dona Edite teve que me dar dez.

Ainda bem que a Diretora da escola não gostava da Ditadura...


 
Dalva Agne Lynch
Enviado por Dalva Agne Lynch em 04/10/2012
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