Dalva Agne Lynch (Sarah)

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(ENLISH VERSION AFTER THE PORTUGUESE ONE)


fig: ilustração de Mercedes Coto Gandemer, 2011 - aquarela e tecido sobre cartão

 
 
AS CRIATURAS DAS SOMBRAS
 
₢ Dalva Agne Lynch e Mercedes Coto
 
 
Elas aparecem quando o sol se põe, as Criaturas das Sombras. Suas roupas misturam o romantismo renascentista, as cores medievais e o sincretismo da era do Rock. Rendas e fitas, correntes e cruzes. Saias longas e esvoaçantes, ou curtas e cheias de babados, pregas, tecidos diáfanos. Calças apertadas, longos casacos pretos, botas com correntes. Cabelos despenteados de mil cores, ou compridos e escuros. Longas unhas vermelhas. Batom negro. Olhos delineados. Rostos pálidos, emaciados, entediados.
 
Esta é a geração surgida depois que o universo de Paz e Amor de seus pais caiu ao chão, porque as bombas continuaram caindo, e o “faça amor, não faça a guerra” não funcionou. Agora são corpos jovens que explodem, acesos pelo fanatismo. E as Criaturas das Sombras sabem disto. Elas ouvem o rugir das bombas e o chamado quase imperceptível de um mundo onde o único sentido é a falta de sentido.
 
Nesse mundo, o som dos Rolling Stones se misturou ao canto medieval e clássico, dando origem a um tipo de música inteiramente novo, com letras que falam da morte do amado, da morte do eu, da morte da razão de todas as coisas. Na cadência rítmica, as Criaturas das Sombras dançam, voltadas para a parede, voltadas para si mesmas, dando as costas a uma realidade que lhes é estrangeira.
 
Quando chega o amanhecer, eles se retiram e voltam a ser apenas gente como todos os demais. Desaparecem o batom escuro, as roupas rendadas e macabramente românticas. Eles se envolvem com estudos, trabalho, internet. Aparentemente, são apenas outros humanos em meio à multidão.
 
Mas eles sabem que não é assim. Ao pôr-do-sol, quando as luzes da cidade se acendem, as Criaturas das Sombras outra vez emergem, para reinar na noite.



ENGLISH VERSION
 
 
THE CREATURES OF SHADOWS 
 
₢ Dalva Agne Lynch e Mercedes Coto
 
 
They arrive when the sun goes down, the Creatures of Shadows. Their clothes are a mixture of Renaissance romanticism, the colors of Medieval times and the syncretism of the Rock Era. Lace and ribbons, chains and crosses. Long flowing skirts, or maybe short and full of ruffles and pleats in diaphanous fabrics. Tight trousers, long black coats, boots with chains. Tousled hair of a thousand colors, or long and dark. Long red nails. Black lipstick. Black eyeliner. Pale, emaciated, bored faces.
 
This is the generation born after their parents´ Peace and Love universe fell to the ground, because the bombs kept falling and "make love, not war" didn´t work. Now it´s young bodies that are exploding, lit by fanaticism. And the Creatures of Shadows know that. They hear the roar of bombs and the almost imperceptible call of a world where the only meaning is the lack of meaning.
 
In that world, the Rolling Stones´ songs mingle with Medieval and Classical songs, giving rise to an entirely new type of music, with lyrics that speak of death - the death of a beloved, the death of Self, the death of the reason for all things. In the rhythmic cadence, the Creatures of Shadows dance facing the walls, facing their own inner selves, turning their backs to a reality which is foreign to them.
 
As dawn breaks, they leave and go back to being just people like everyone else. Gone are the dark lipstic, the lacy and romantic macabre clothing. They get involved with school, work, Internet. They look like just any other human being lost in the crowd.
 
But they know it is not so. As the sun goes down, when the city lights begin to shine, the Creatures of Shadows once more emerge,  to rule the night.
 

Site oficial da autora: http://www.dalvalynch.net
Endereço da autora na REBRA: http://rebra.org/escritora/escritora_ptbr.php?id=1158




Dalva Agne Lynch
Enviado por Dalva Agne Lynch em 06/03/2012
Alterado em 25/02/2013
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