Dalva Agne Lynch (Sarah)

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O MAGO - O ARQUÉTIPO DO HOMEM, DO CIENTISTA E DO PEREGRINO
(interpretação do mito - e leve em consideração que é apenas isto: um mito)
  
 
© Dalva Agne Lynch
  
 
 
O Mago representa o homem jovem. Representa tudo o que é espontâneo, vital, confiante. Ele tem em si razão e emoção, paixão e racionalismo. Ele é altivo e corajoso, mas prepotente e intransigente: ele é o Homem antes de ter passado pelos Caminhos da Vida e pela Noite Escura da Alma. O Mago é o protótipo de Adão - o Senhor das Coisas Selvagens. Ele é o deus criança, ainda sem o entendimento e a sabedoria necessárias para que tenha o direito e o dever de reinar sobre a Criação. 
 
É no Mago que o Louco, o Peregrino - você e eu -  começa sua jornada rumo ao Divino. Na mitologia grega ele é Hermes, na romana, Mercúrio. Como tal, ele é o mensageiro dos deuses e o protetor dos viajantes. A palavra "hermenêutica", que significa interpretação de coisas obscuras, vem de seu nome. Hermes, Mercúrio, o Mago - o jovem - é aquele que estuda as ciências, as religiões, os mitos, o Oculto, buscando as razões e funções das coisas, pesquisando sobre o sentido recôndito do mundo que o cerca. Todo jovem é um viajante pelo Caminho da vida. Todo jovem é o Mago.
 
Os antigos egípcios chamavam-no de Thoth, o deus da inteligência, da busca, dos mistérios do mundo. Thoth é o deus dos reinos míticos da mente, e é dele que vem o nome do Tarot cujas cartas estou analisando.
 
O Infinito - Nuit, na mitologia egípcia - está sobre a cabeça do Mago como uma coroa. Ele levanta sua mão direita, na qual repousa a Fênix - símbolo da eternidade e do renascer -  e une as forças do Alto com as coisas manifestas que estão abaixo, e que são as suas armas, e para as quais a sua mão esquerda se dirige. O Homem é o elo entre as coisas criadas e a Força Criadora.
 
Contudo, em sua posição como Mago, o homem ainda está apenas começando sua jornada. Ou seja, nele tudo está ainda apenas em potencial. Ao seu redor, entretanto, ele tem à sua disposição tudo o que precisa para levá-lo ao fim da Jornada, e que também são os naipes do Tarot: a Espada da Vontade Superior, ou Verdade; o Bastão inflamado da Espiritualidade; o Disco do poder material; a Taça do Amor e do Sacrifício, que também se chama Misericórdia - e, sobre essa Taça, está o jarro da Água da Vida.
 
Acima de todos esses elementos, está o símbolo do Ovo Órfico - a suprema Alkimia - a Quintessência, dentro do símbolo alado do Infinito. Este é o potencial divino do Homem, que ele atingirá apenas se for até o fim de sua jornada em busca do sentido último de todas as coisas.
 
O Mago - o jovem - tem também à sua disposição uma pena, ao lado direito, e um  papiro ao lado esquerdo. Ambos são símbolos do intelecto e da criação humana, das Artes, das Letras, e contrastam com a figura do Macaco Hermanubis, abaixo e à esquerda do Mago, e que ergue-lhe o punho em ameaça. Hermanubis representa a besta dentro do Homem: a mentira, o engano, a violência.
 
O Mago começa sua jornada nu como foi criado, tendo à cintura o símbolo de seu poder: a Serpente, a força criadora, que pode tanto se voltar para o bem quanto para o mal. Ele está para se tornar Criador. Está dando o primeiro passo em direção a ser um mestre dentre todos os animais da Terra, mas isto acontecerá apenas no fim de sua Jornada, quando, mais uma vez, ele se transmuta no Louco, porque tornou-se sábio. Até lá, será apenas um aprendiz.
 
E que Jornada é esta que o Mago, o jovem - você e eu - terá de enfrentar, antes de assenhorear-se do poder que lhe foi conferido?
 
Ele precisa primeiro estabelecer sua identidade. Precisa aprender a utilizar seus instrumentos, e precisa, sobre tudo o mais, vencer a si mesmo, vencer a besta irracional que tem dentro de si. 
ALEPH - A FORÇA CRIADORA
 
A força criadora do Mago, e que o impulsiona ao conhecimento, à conquista, às descobertas, ao moldar, pintar, escrever - é Aleph (primeira letra do alfabeto hebraico, e o número um). Sim, o Mago é Aleph, mas não pode criar sozinho - e esta será a primeira lição que precisará aprender.
 
"Se não fosse por Bet na cauda de Aleph, o mundo não poderia existir." (HaBahir, O Livro da Iluminação, 15 - Kabbalah)
 
Já analisamos Bet, no texto "A Sacerdotisa - O Arquétipo da Mulher, do Artista e do Profeta" 
(
www.dalvalynch.net/visualizar.php?idt=937957 ). Aqui, basta dizer que O Mago é também Bet (segunda letra do alfabeto hebraico, e o número 2). E como poderia ser isto? Ele não é o número 1, o Aleph?
 
Não. Quando o Eterno criou o Universo, a primeira coisa que Ele criou foi o Conceito de Si mesmo. O número um é o conceito do Uno, e também do que o homem deveria se tornar ao fim de sua jornada: o Louco.
 
Portanto, o Mago contém em si mesmo tanto Aleph quanto Bet - daí advindo o mito da mulher ter sido criada "da costela de Adão", ela sendo o número 3: a Sacerdotisa.
 
Sem o ventre de Bet, Aleph permanece infrutífero. E a união de Aleph com Bet é Chesed (hebraico): a Misericórdia. A primeira lição do jovem Peregrino, portanto, ao penetrar no âmbito de Aleph - o Mago - é sair de si mesmo, e aprender o que é Chesed: ele precisa aprender a amar, ou nunca chegará ao próximo portal de sua caminhada. 
 
"Subjugar o eu em favor do outro, sem dúvida, é uma árdua tarefa para um ser mortal, mas é algo natural para o ser espiritual. (...) O trabalho do Homem é justamente criar o elo de ligação entre o querer receber e o querer dar, achar a linha do meio, o ponto de equilíbrio. Por que uma linha? O significado da palavra linha é algo que conduz. Linha telefônica, linha de comunicação. O Homem pode se utilizar da linha direita e então se conectar com o lado positivo - o que dá - ou se conectar com a linha esquerda, a que recebe. Quando ele se liga com a linha do meio, o Homem fica em harmonia entre as duas forças." (Sigalith Koren, Almanaque da Kabbalah, Ed Sefer)
 
De Chesed (Amor), o Peregrino segue por Aleph em uma linha reta que o conduzirá, através de muitas batalhas, até Chochmah (Sabedoria), onde ele tomará posse de sua verdadeira missão como homem. 
 
Voltando a Aleph: ao se unir a BetAleph deixa de ser Aleph: ele passa a ser Vav (letra hebraica e o número 6, que é o número do Homem). 
 
E como se dá isto? Através do amor, Aleph, o jovem, transcendeu a si mesmo, e está pronto para penetrar no Reino das Sombras (Da'at, o Portal Escondido da Árvore da Vida), de onde sairá purificado pelo Conhecimento, a fim de continuar sua Jornada.
 
Mas voltemos ao assunto. Quem é Aleph, o Mago?
 
Na Kabbalah, Aleph é Ruach - em hebraico, sopro, vento, ar, espírito. Ele pode tanto criar quanto destruir. Ele pode tanto subir os Caminhos da Árvore da Vida, quanto se perder por eles.
 
Seu elemento é o Ar. Seu número é o seis, o número do Homem - quando ele se transforma na sua configuração máxima.
 
Aleph é uma das letras-mães da criação do mundo, juntamente com Mem e ShinAleph é a tese que precede a antitese e a síntese - é a primeira indagação, o primeiro despertar do Homem para os mistérios do Universo.
 
Mem representa o elemento Água. Com ela, Aleph forma as duas direções opostas (Ruach também significa "direção") de uma linha dimensional.
 
Shin, por sua vez, é o elemento Fogo, e representa a síntese, definindo, assim, as três dimensões do espaço  
(acima/abaixo, norte/sul, leste/oeste) ao se permutarem estas letras-mães com as letras do Nome Sagrado do Eterno, o Verbo impronunciável, e significa "EU SOU": Yud, Heh, Vav. Em termos mais simples, "água" (Mem) representa a matéria; "fogo" (Shin) representa a energia, e "ar" é o espaço no qual os outros dois interagem.
 
 
O elemento "terra" é representado pelo segundo Heh do Nome Sagrado do Eterno (Yud, Heh, Vav, Heh), e é a quarta força, a gravidade. Os quatro juntos formam o Tetragrammaton (que, em inglês, chama-seYahweh ou Jehovah, e, em português, Iavé ou Jeová). Nas traduções bíblicas, a palavra foi traduzida como O SENHOR. Nas Escrituras Hebraicas, ADONAI. Os povos, entretando, dizem deus.
 
Da permutação (combinação) das três letras-mães (Aleph, Mem, Shin) com as três letras do Nome Sagrado (Yud, Heh, Vav), saem os doze caminhos diagonais da Árvore da Vida, e os Portais, ou Sefirot (plural de Sefirah), que o homem precisa atravessar no Macrocosmo (Universo) para chegar à Sabedoria e, no fim, ao Eterno.  
 
O corpo do Homem, contudo, é o Microcosmo - e ele representa o que a Kabbalah chama de "Alma". Nesse corpo, Aleph é a linha que vai do ombro esquerdo (Chesed - amor) ao ombro direito (Gevurah - poder). No Catolicismo, este é o Sinal da Cruz. Em Thélema, é a Cruz Cabalística.
 
E voltamos aonde começamos - o jovem, o Mago, Aleph, precisa chegar ao Poder apenas através do Amor, porque esta é a única maneira de se assenhorear de sua configuração máxima como Homem. E isto porque só assim ele terá transcendido a si mesmo, aprendendo que qualquer poder, se não for guiado pelo amor, é maligno. E, como recompensa, ele receberá o direito de empunhar a Balança da Justiça. 
 
E o que é a Balança da Justiça, senão dois pratos nos quais são pesadas todas as coisas, e cuja barra de ligação é justamente a linha que une o Poder ao Amor? 
 
E nós, Peregrinos, jamais subiremos ao Infinito sem termos primeiro aprendido a exata medida entre estes dois, a fim de que possamos julgar e pesar todas as coisas. 
 
Nao existe Poder sem Amor - e não existe a Espada do Espírito, a Vontade Superior, sem que haja, na outra mão que a empunha, a Balança da Justiça.
 
Nota: apesar de me utilizar do Tarot de Thoth e das correlações segundo Thélema, não me atenho de forma alguma à Qabalah thelêmica, mas recorro à Kabbalah Judaica. Por esta razão, algumas vezes minhas interpretações dos Atus do Tarot de Thoth (e do Tarot em geral), bem como suas atribuições (letra, número e corpo) variam dos demais intérpretes - entre eles o próprio Crowley, em O Tarot de Thoth - Editora Madras, e nosso querido Johann Heyss, em seu  livro "O Tarot de Thoth", Editora Nova Era-Record.

 
 
Dalva Agne Lynch
Enviado por Dalva Agne Lynch em 15/04/2010
Alterado em 28/06/2017
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