Dalva Agne Lynch (Sarah)

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Considerações Históricas sobre o Natal - 2008

₢ Dalva Agne Lynch



 

Natal. Paz na terra aos homens de boa vontade. Presépio, pinheiro enfeitado, presentes, canções.
 
Ok, vamos dizer que o Natal é mesmo o aniversário de Jesus, ignorando o fato de que, em dezembro, a temperatura em Israel vai abaixo de zero, e nem o pastor mais lunático ia estar "no campo com as ovelhas". Desde tempos imemoriais, na Judéia - hoje Israel -, os rebanhos, no inverno, são recolhidos para dentro do andar térreo das casas.
 
Você já viu filmes e fotos das casas da Judéia, de ontem e de hoje? Elas possuem dois pisos: o de baixo, vazio, para os animais. Daí uma escada externa leva as pessoas para o segundo piso, onde elas moram, e depois para o teto, onde estendem a roupa para secar, etc e tal.
 
Poizé. As ovelhas ficavam e ficam  lá naquele cômodo do térreo, durante o inverno. Nunca jamais nos campos com os pastores.
 
Vamos e venhamos: Jesus nasceu em outubro, na Succah (cabana) de Succot, a Festa dos Tabernáculos, quando, naquele ano fatídico, todo mundo foi para seu lugar de origem para se registrar, a pedido do rei. Está lá no Novo Testamento, mas ninguém se dá ao trabalho de ler. "Estou certo do que acredito, não me venha com fatos!"
 
Agora vamos ao "paz na terra". O que disse Jesus, de acordo com o Novo Testamento?
 
"Não cuideis que vim trazer paz à terra: não vim trazer paz, mas espada: porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai e a filha contra sua mãe, e a nora contra a sua sogra." (Mateus 10:34)
 
"Vim lançar fogo na terra e que mais quero, se já está aceso? (...) Cuidai vós que vim trazer paz à terra? Não, vos digo, mas, antes, dissensão. Porque, daqui em diante, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois, e dois contra três. O pai estará dividido contra o filho, e o filho, contra o pai, a mãe, contra a filha, e a filha, contra a mãe; a sogra, contra sua nora, e a nora, contra sua sogra." (Lucas 12:51)
 
Não estou de forma alguma dizendo que Jesus não nos deu palavras de paz e de amor. Ele deu, sim. Mas o que fizeram, depois disto, com tudo o que ele fez e disse, não tem nada de paz e amor. O Evangelho, imediatamente após a morte de Jesus, virou pomo de discórdia entre seus próprios seguidores, e entre estes e o resto do mundo. O que foi lançado como paz e amor se tornou a maior fonte de separação entre os homens.
 
E por quê? Como foi que algo tão belo e tão bom se transformou no que temos hoje - igrejas e templos e grupos e seitas que se veem como os únicos amados de D´us, os únicos salvos, e o resto do mundo como pobres condenados, que lhes deve sustento e amor, sem receber nada em troca a não ser um "Jesus te ama" meia-boca?
 
Ah, mas isto é a natureza humana, amigo ou amiga. A figura de Jesus, bem como ele disse, transformou-se no marco de separação entre os homens. Antes dele, as guerras eram por ganância, inveja, ciúmes. Hoje, as guerras são por ganância, inveja, ciúmes - mas revestem-se da fantasia (roupa) da fé.
 
Primeiro temos os Cruzados. Soldados do Evangelho? Ah, é! Mercenários, todos eles! Quer dizer - os generais, os manda-chuvas. Vejamos: os Templários eram os banqueiros da época, e enriqueceram às custas dos Peregrinos que viajavam à Terra Santa. Claro que pegaram em armas para defender a Palestina: sua riqueza inteira dependia dela estar livre para visitas! Então pobres jovens, cegos com tanta pregação da Igreja, empunharam armas para defender as riquezas dos Templários. E estes foram os Cruzados, amigo ou amiga. Defendendo não a Terra Santa, mas a fonte de renda dos Templários - a maioria deles em completa ignorância.  
 
E quando mais da metade da juventude européia jazia morta nos campos da Judéia, os Templários estavam tão ricos, que possuíam metade das terras da Europa. E lá veio a Igreja, com seu Papa vestido de ouro e santarronice. Com a ajuda dos reis e dos senhores feudais, a Igreja condenou os Templários, roubou seus tesouros e suas terras, incorporando tudo ao Vaticano, com algumas conceções aos reis europeus. Fim das Cruzadas.
 
Então a Igreja prosperou. Claro... Até que um dia, lá veio Henrique VIII e sua ignorância, pensando que suas muitas mulheres lhe estavam negando um herdeiro. Coitado: na época, não se sabia ainda que o sexo dos bebês é determinado pelo gene masculino, e não o feminino.
 
Bom - voltando à vaca fria, para poder se divorciar, Henrique VIII se desligou de Roma e inventou a Igreja Anglicana. Matança de padres e monges, queima de livros, de igrejas e catedrais. A Escócia se rebela, com Maria, Rainha da Escócia, como bandeira de guerra. Ela era fiel ao papa.
 
Os escoceses se armaram até os dentes, para manter os anglicanos fora de suas terras, enquanto os irlandeses faziam o mesmo. Fé? Não seja ingênuo/a: se a Escócia e a Irlanda caíssem, todas as suas riquezas passariam às mãos dos ingleses, e as suas cortes pagariam tributo à coroa inglesa. Fé coisa nenhuma: isto foi apenas fumaça nos olhos dos camponeses, para que se levantassem e pegassem em armas para defender as riquezas da coroa da Escócia e da Irlanda.
 
Não devemos nos esquecer, aqui, que o catolicismo escocês e irlandês era pesadamente mesclado com os cultos celtas, o que nos leva ao outro lado do mar (não se esqueça que a Grã-Bretanha não faz parte do território europeu, mas é uma ilha isolada).
 
Poizé. O papa já havia, pela ocasião das guerras britânicas, tentado mitigar os ânimos do povo nórdico, declarando que Jesus nascera na noite do Solstício de Inverno (25 de dezembro), e Jack-on-the-Green, figura mítica do renascimento e da prosperidade nos cultos celtas e nórdicos, já fora incorporado às celebrações na figura do pinheiro enfeitado. A história de Wothan, ou Odin, o deus da guerra e da ressurreição, crucificado em Iggdrasil (a Árvore da Vida nórdica) para a salvação da alma do mundo, já estava devidamente incorporada aos textos bíblicos, e todos os textos que descreviam a morte de Jesus de alguma forma diferente, bem como seu nascimento, já haviam sido considerados apócrifos, e retirados das Escrituras. Limpeza geral - o cristianismo, agora, era aceitável aos bárbaros europeus. A Bíblia estava purgada.
 
E daí veio Martinho Lutero. Ah, o guerreiro que se levantou contra os papas e suas riquezas terrenais, e criou o protestantismo - a religião pura!
 
Será? Martinho Lutero estava defendendo sua agenda política, amigo ou amiga, e usou as Escrituras para provar seu ponto: acima de tudo, a Igreja estava rica demais, enquanto o governo precisava de dinheiro. 
 
Por sinal, Martinho Lutero não lutou apenas contra a riqueza do Vaticano, porque, por esse tempo, os judeus é que eram os banqueiros da Europa, tendo substituído os Templários. Então, pau nos judeus! Martinho Lutero escreveu:
 
"Primeiro, suas sinagogas deveriam ser queimadas... Segundo, seus lares deveriam, da mesma forma, ser quebrados e destruídos... Terceiro, eles deveriam ser privados de seus livros de oração e Talmudes... Quarto, seus rabinos devem ser proibidos sob ameaça de morte de ensinar... Quinto, passaporte e privilégios de viagem deveriam ser absolutamente proibidos a judeus... Sexto, eles deverão ser proibidos de praticar usúria (cobrar interesse em empréstimos)... Sétimo, dêem aos judeus e judias fortes o mangual, o machado, o ancinho, a enxada, o fuso, o tear, e que ganhem seu pão com o suor do seus narizes... Deveríamos arrancar a preguiça velhaca de seu sistema... Portanto, fora com eles... Resumindo, caros príncipes e nobres que possuem judeus em seus domínios, se este meu conselho não lhes serve, então encontrem um melhor, de forma que vocês e nós possamos todos nos livrar desta insuportável carga diabólica - os judeus."
 
Isso não tem nada a ver com religião e racismo, amigo ou amiga. Pode descansar - Martinho Lutero não era racista, nem anti-semita. O que Martinho Lutero e os reformistas queriam era as riquezas dos banqueiros da Europa. Seja como for, mais tarde, quando se deu conta da besteira que havia feito, ele se retratou. Não cai bem ir contra quem tem a chave dos cofres.
 
Daí temos Calvino e a Inquisição, aparentemente matando bruxas por amor ao Evangelho. Bruxas? A maioria das pessoas queimadas era composta de mulheres e homens ricos, cujos castelos, terras e tesouros eram focos da ganância calvinista, e foram confiscados e incorporados à Coroa. Claro que o povo, o camponês, saiu matando tudo o que era parteira, visionária e curandeira em nome de Cristo, mas o que importa aqui é saber que o começo de tudo foi... ganância. A ignorância do povo foi apenas consequência.
 
Bom - daí chegamos aos dias atuais, e as guerras da Irlanda, as guerras do Oriente Médio. Guerras de fé? Pelamordedeus! Abra os olhos, amigo ou amiga: essas nossas guerras de hoje são guerras por terra, por petróleo, por poderio.
 
Nada mudou, amigo ou amiga: as palavras de Jesus, hoje como ontem, continuam vivas:
 
"Não cuideis que vim trazer paz à terra: não vim trazer paz, mas espada."
 
Seja como for, tenha um Feliz Natal.  Que seu pinheiro esteja cheio de luzes e bolas coloridas, presentes e guloseimas. Que sua família encontre união e força em torno de sua fé de escolha. Que os invejosos, gananciosos e ciumentos não estendam suas garras sobre sua propriedade. E que a paz verdadeira, A PAZ DOS INOCENTES, seja sua nessa noite mágica.




 
Site oficial da autora: http://www.dalvalynch.net
Endereço da autora na Rede de Escritoras Brasileiras:
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fig: Andrea del Sarto, "Madonna della Scalla"


 
Dalva Agne Lynch
Enviado por Dalva Agne Lynch em 20/12/2008
Alterado em 14/12/2011
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