Sarah D A Lynch

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Textos


A Criação do Mundo segundo Tzadkiel
(parte do Capítulo I de "Gehinnom)

Ilustração: Marc Chagall, Árvore da Vida



Antes que a Terra fosse criada, Ein Sof, a Essência, que não pode ser explicada ou traduzida, porque está além da nossa compreensão e entendimento, contraiu-se e se imbuiu de um Conceito. Esse Conceito, esse poder propulsor, criou então, no lugar produzido pela contração, os Céus, e tudo o que neles há. A Terra, e tudo o que nela habita. Tenha em mente que não estou falando sobre o Universo. Estou falando no âmbito da Terra. O resto, por mais que homens e anjos discutam a respeito, não faz parte da história deles, portanto está além de seus limites de conhecimento, existe e pronto.

Então, aquele primeiro Conceito de Ein Sof foi um Verbo. Em todas as línguas da Terra, os homens têm permissão de enunciá-lo, quer dizer, falá-lo, porque sua tradução não tem poder criativo. Em todas as demais línguas, ele não é um verbo ativo, mas sim passivo: o verbo ser.

Na Linguagem Primordial, contudo, quer dizer, no Hebraico, esse Verbo não pode ser enunciado. Ele é a própria Essência, é Criação, é Ein Sof. Assim, em qualquer língua você diria, ‘eu sou João’, ‘você é Marta’; mas em Hebraico, a Língua Sagrada que está na Terra sob a guarda dos Sábios e do Povo do Verbo Impronunciável (daí o nome que damos ao Povo, né), você diria, ‘eu João’, ‘você Marta’. O verbo ser não pode ser enunciado.

Foi no Poder e na Força desse Verbo que surgiu tudo o mais que se pode conhecer, o modelo da Terra sendo uma cópia exata do modelo dos Céus. Assim como é aqui embaixo, assim é também nas alturas. E a evolução do homem foi representada como uma escadaria, ou uma Árvore, cujos degraus – ou galhos - são guardados por nós, Arcanjos, para que o homem, em sua liberdade, não a suba, e chegue aos Portais Divinos em seu estado mais ínfimo. Leve em conta que isto é uma imagem de uma realidade espiritual. Não fique aí imaginando uma escada de verdade, cheia de portas, ou uma árvore.

Agora, havia um Arcanjo que estava acima de todos nós. Era Heilel, o mais belo, que possuía o atributo mais precioso de todos. Ele possuía a liberdade de escolha, o livre arbítrio. E ele era o Guardião não de Portais, mas da própria manifestação da Essência. Ele era o Guardião da Shekinah – a Luz Divina.

Acho que todos sabem o que aconteceu com Heilel. Para conhecer a Luz que guardava, ele precisava conhecer também o seu oposto, as Trevas, porque tudo no Universo tem seu oposto. Nada pode existir, se não existir o seu oposto.

Pois Heilel se apaixonou mais pelos intrincados caminhos das Trevas do que pela exposição total da Luz. E como era livre para escolher, ele escolheu seguir por esses caminhos, e depois ensiná-los aos homens, dando-lhes assim o conhecimento e a capacidade de escolher entre o Bem e o Mal. E porque ele queria reinar supremo sobre os homens desde as alturas, Miguel e eu tivemos então que expulsá-lo dos Céus, na maior Batalha que já houve em todo o Universo (e depois falo sobre isso).

Voltando à vaca fria, enquanto todos os Arcanjos carregam uma Espada de Luz, imbuída de seus atributos especiais, a mim foi dado carregar não uma Espada, mas o Estandarte da Shekinah, que só pode ser levantado pela Misericórdia e o Amor. E como já disse, a Shekinah, a Luz Divina cujo Estandarte me cabia carregar, era guardada pelo flamejante Sabre prateado de Heilel, que, como eu, fora criado ainda menino. E nosso lugar em batalha era seguir com Miguel, o Arcanjo da Guerra, à frente de todas as Hostes. Porque guerrear é inevitável na existência de todos os Seres criados, mas o Ser do Bem guerreia com Misericórdia, guiado pela Luz Divina.

Então, como já falei, aquela grande guerra terminou com Miguel e eu expulsando Heilel e suas Hostes. Miguel queria que eles fossem exterminados, mas eu queria que eles tivessem uma chance de se regenerar. A decisão final cabia a Uriel, que se deixou levar pelos meus rogos, então Heilel e suas Hostes foram poupados e lançados à Terra, para que pudessem se redimir entre os homens. O que não aconteceu, como todo mundo sabe. Heilel virou a própria imagem do Mal para os humanos, que o chamaram de Satanás, e suas Hostes se transformaram nos temidos Demônios Goéticos, que passaram a controlar todos os Seres desprezíveis do Astral.

Miguel jamais me perdoou, porque a briga dos Céus agora se transportara à Terra, e ele e suas Hostes precisaram descer pra cá e permanecer aqui desde então, porque os homens nunca mais pararam de guerrear entre si. Pelos milênios afora, enquanto o resto do Universo se expandia e evoluía, os habitantes deste pequeno planeta chamado Terra se digladiavam entre si, buscando por poder e supremacia.

Apesar de tudo isso, ou talvez devido a tudo isso, nunca cheguei a aprender os princípios mais básicos de lutar numa batalha. Eu podia organizar uma batalha, podia dirigir uma batalha, mas nunca precisei lutar fisicamente em uma. Ficava só acompanhando Miguel e azucrinando-o com criticismo. Agora que tudo se passou, posso ver que fui bem como os políticos humanos, quer dizer, eu achava que sabia tudo, e ainda por cima pensava que havia tido uma grande vitória sobre ele, com aquela de poupar o pessoal. Eu não entendia o preço enorme que era para ele e Uriel permitir que uma vida, celestial ou terrena, fosse ceifada. E a vida que tirei... Mas isso fica pra depois.

Como parte do meu castigo, os Desígnios me mostraram todos os horrores que se seguiriam na história da Terra, provavelmente devido a que eu não tivesse aprendido de quem ter misericórdia, ao poupar Heilel e suas Hostes.

Eles me fizeram ir ao futuro, coisa que raramente fazem, e ver o homem criando armas capazes de destruir o planeta a um só toque de botão; acabando com as Florestas e poluindo os rios, matando todos os demais Seres. Mostraram-me também o separatismo, o preconceito, o antissemitismo, as religiões oprimindo os povos. Vi terríveis guerras sendo travadas entre nações, aparentemente por dinheiro e territórios, mas, segundo o que nós sabíamos, pelo poderio espiritual da Terra. E eles também me mostraram que um dia as coisas iam ficar tão ruins, que todas as Hostes dos Céus desceriam sobre a Terra com a Espada, para limpá-la da maldade humana.

Na minha impulsividade, eu não quis ver mais nada, nem como as coisas iam terminar. E o resto da história conto depois, mas basta dizer que um dia, milênios mais tarde, simplesmente me levantei perante o Conselho e disse que eles podiam tirar minha eternidade, meus poderes, tudo, porque eu preferia viver e morrer na Terra com os humanos, a fazer parte de sua exterminação. E foi assim que nasci metade humano, filho de Uriel com sua inocente amada terrena, no dia 20 de outubro de 1988 .
No ano passado, quando atingi a maioridade humana de 13 anos segundo as Leis do Povo do Verbo, o Conselho me fez saber de minha identidade como Arcanjo, a qual eu havia obviamente esquecido, e uns cinco meses mais tarde morri como humano e voltei à minha Essência e ao meu lugar no Conselho. E olha, ir de 13 para 18 anos em uma noite não foi brincadeira!

Quanto ao resto, o que aconteceu recentemente, caso você não saiba, foi que, enquanto estava batalhando pelas Florestas no Mato Grosso do Sul, nós vimos um avião a ponto de meter fogo nas Reservas indígenas, então, num arroubo de loucura, simplesmente me transportei para ele, joguei o piloto inocente pra fora de paraquedas, e derrubei o avião . O copiloto era um traficante assassino que estava para queimar tudo, e ele caiu com o avião e morreu. Fui acusado de assassinato, de impulsividade e de muitas outras coisas, e já que não podiam fazer mais nada para me punir, colocaram-me nas mãos de Miguel, para que ele forjasse meu castigo.

E foi assim que, no dia 15 de junho de 2001, só alguns dias depois de tudo aquilo, fui parar como soldado das Forças Armadas Americanas, que na época eram um dos maiores bastiões da luta contra o Terrorismo. Meu trabalho seria batalhar junto com eles como se fosse um mero humano, e também contra o preconceito, a discriminação e o antissemitismo que se seguiriam nos anos após a guerra. Meus anjos ficaram outra vez sob Uriel, e comecei meu treinamento.


Nota: Gehinnom está sendo escrito com base nas Escrituras Judaicas, a Kabbalah e o Tanya - apresentado por meu personagem fictício Tzadkiel.


 
Sarah D A Lynch
Enviado por Sarah D A Lynch em 14/11/2018
Alterado em 14/11/2018
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