Sarah D A Lynch

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Textos


Chanukkah
Tzadkiel visita os Macabeus

(do livro Gehinnom, que examina, em linguagem juvenil, as origens do Terrorismo atual, tendo como base a História do território hoje conhecido como Afeganistão e Paquistão )



Antes de entrar na parte em que as tribos Yuezhi invadiram o Afeganistão e acabaram com a festa de todo mundo – Selêucidas, Bactrianos e Maurias – preciso fazer uma espécie de parêntese na minha narrativa. Vamos e venhamos, tudo isso é um tremendo saco, e eu queria espairecer. Então deixei o território do Afeganistão, voltei ainda mais um pouco no tempo, e fui até o braço do Império Selêucida que se estendia para o Sul, contornando o mar Mediterrâneo e chegando até o Egito.


Em todos os territórios que conquistara, Alexandre havia permitido que os povos continuassem a seguir suas próprias religiões e costumes, mas mesmo assim muitos dentre o Povo do Verbo Impronunciável que permaneceram na Judeia e Samaria aceitaram a cultura, a linguagem e os costumes gregos, bem como acontece hoje, quando eles adotam os costumes e as roupas dos países onde moram, mas sem perder sua identidade. Quer dizer, eles continuaram com sua própria religião, o Judaísmo, que é o centro da cultura do Povo. Enquanto isso, o resto deles, como já expliquei anteriormente, estava na Diáspora, espargido por todo o Oriente Médio e a Eurásia.

Muito tempo depois, em 175 AEC, quando Alexandre já havia falecido e toda a região que é hoje Israel estava sob o domínio do Império Selêucida, subiu ao poder um imperador chamado Antioco IV. Ora, Antíoco exigia que todos os povos sob seu domínio seguissem a religião persa, e se chocou de cara com o Povo do Verbo, porque eles se recusaram. Antíoco interpretou isso como sendo uma revolta contra o seu poder, enviou seus exércitos contra eles, e declarou ilegal o Judaísmo.

Os soldados saquearam Jerusalém e incendiaram a cidade, matando ou escravizando seus habitantes. A circuncisão, o Shabbat e todos os festivais foram proibidos, e uma quantidade enorme de Manuscritos Sagrados foi queimada. Para profanar completamente o Templo, Antíoco assinou um edito para que se sacrificassem porcos no altar.

Como você provavelmente já sabe, porco não é kasher[1], então aquele edito recebeu violenta oposição por parte de dois grupos – um grupo nacionalista, liderado por Matatias e seu filho Judas, e um grupo religioso tradicionalista, os Chasidim (sem conexão direta com os Chasidim de hoje).

Mais tarde, Judas foi chamado de “Judas Macabeu”, palavra composta pelas iniciais de quatro palavras hebraicas: Mi Kamocha Ba´eilim Hashem, que significa “Quem é como Tu, Hashem?”.

Esses dois grupos terminaram se unindo numa enorme revolução contra a assimilação e contra a opressão religiosa dos Selêucidas, e ficaram conhecidos pelos milênios afora como “Macabeus”. Eles retomaram o Templo, mas foram sitiados dentro dele. E foi bem aí que cheguei, para observar como tudo aconteceu.

O lugar estava uma bagunça só. Depois de limparem tudo, jogarem fora toda a parafernália persa e recolocarem a Menorah[2] em seu devido lugar, eles precisavam reconsagrar o Templo, e acender as luzes do Candelabro Sagrado.

A coisa é que, uma vez acesas, as luzes da Menorah deveriam brilhar continuamente, mas eles encontraram apenas um vidrinho de nada do óleo sagrado. Aquele óleo dava só para um dia, e levava oito dias para que se fabricasse mais. Eles então acenderam as luzes mesmo assim, e meteram mãos à obra para fazer mais. Eu fiquei esperando para ver como aquele óleo ia durar oito dias, como dizem os Textos Sagrados, mas estava ficando tarde, e nada. O segundo dia já estava para começar, o óleo estava quase se acabando, e como sempre acontece comigo, comecei a entrar em pânico. E daí não deu outra, né – lancei meus raios violetas na Menorah. Era agora que o Conselho ia me castigar! E também... E se não funcionasse?

Pois funcionou. O óleo aguentou todos os oito dias que o pessoal precisava para fabricar mais. E enquanto os oito dias se passavam, aproveitei para dar uma mão aos Macabeus, na sua luta contra os Persas.

Muita coisa se passou durante aquela luta, mas vai tomar muito tempo e espaço falar a respeito. Mas vencer um inimigo daquela magnitude foi considerado um verdadeiro milagre, e milagre maior ainda foi o fato daquele óleo ter durado oito dias. Bom, foram milagres mesmo, né. E então fiquei confuso. Eu não mudara o passado – eu o cumprira! Como era possível? E enquanto o Povo celebrava os seus milagres, eu me sentei à frente do Templo e comecei a rir. Mas é claro! Hashem sabe todo o futuro! O que era passado para nós, Seres criados, era passado, presente e futuro para Ele, e estava gravado desde a fundação do mundo! Ele sabia que eu iria até lá, e o que eu ia fazer!

O mais estranho de tudo é que me lembrei de uma ilustração de um artista chamado Gustav Dore, do século XIX, chamada “O Anjo dos Macabeus”. Como também sou artista e tenho uma memória sobre-humana, fiquei mentalmente examinando a ilustração. Realmente, artistas vivem em outro mundo. Ele captou exatamente como foi a coisa, e o anjo dele se parece mesmo comigo, só que mais gordo. Inclusive eu me lembro de pegar aquela armadura emprestada de um sujeito – ele disse que o antigo dono havia falecido na luta do dia anterior.
 
 
Bom, a partir daquele dia, a vitória dos Macabeus e o milagre dos oito dias foram celebrados para sempre entre o Povo do Verbo Impronunciável. Era o Festival das Luzes – Chanukkah.
 
[1] De acordo com as leis judaicas
[2] Candelabro sagrado com sete ramos, originalmente feito por Bezaleel na época do Tabernáculo (Êxodo 37:17-24 - Torah
 
Sarah D A Lynch
Enviado por Sarah D A Lynch em 11/12/2017
Alterado em 11/12/2017

Música: Chanukkah oh Chanullah - Theodore Bikel

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