Sarah D A Lynch

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Textos


A Escola de Van Gogh
(para a Artista Martha Maria Zimbarg)





Van Gogh literalmente se desesperava por não conseguir reproduzir exatamente aquilo que via. Em uma instância, estava pintando girassóis em um campo, mas em um arroubo de exasperação com o que via como sua incapacidade de retratar o que estava a seu redor, quebrou a tela, rasgou o pano e jogou tudo longe. Daí agarrou um punhado de girassóis e foi para casa chorando. Colocou os girassóis em um vaso e daí sim pintou - pintou o quadro que conhecemos e veneramos, e que nunca vendeu, nunca chamou a atenção de ninguém até depois de sua morte. Mais tarde, voltou ao campo e pintou seu Campo de Girassóis. De vingança contra si mesmo.
 
Ele venerava Gaugin, pela capacidade que este tinha de reproduzir a realidade como bem entendesse, mas Gaugin era cruel, e fazia troça de Van Gogh. A orelha cortada foi para Gaugin. E por mais que se queira negar o fato, Van Gogh era bissexual, o que aumentava seu tormento,  tendo sido criado por um pai altamente religioso.
 
A pintura de Van Gogh é uma pintura de desespero, de um gênio que estudou a vida toda para ser clérigo, e que se tornou pintor por transcendental necessidade de externar seu mundo interior. O resultado que vemos - as árvores contorcidas, as estrelas circundadas por halos, é fruto não somente de seu desconhecimento da pintura, mas também porque ele era míope, e via estrelas, lua e lâmpadas acesas com essa auréola de luz que todo míope vê. E as árvores contorcidas são também retratos do que ele via: ele não discernia folhas à distância, mas seu espírito retratou até mesmo o vento.
 
Van Gogh não copiou o mundo - retratou sua visão do mundo. Não se desligou da forma por capricho, ou para criar algo novo, mas retratou a forma que apenas ele via, e que tem encantado multidões.
 
Van Gogh foi o pioneiro dos pintores "malditos" - e por mais que aqueles que vieram depois dele tentassem, jamais conseguiram ou conseguirão copiá-lo, porque é impossível retratar o que apenas ele via, da maneira como via. E poucos, muito poucos, deram-se conta de que a resposta para isso era pintar o seu próprio mundo, da maneira como o viam. Quem conseguiu, consagrou-se. Não por ser da "Escola de Van Gogh", mas por ter continuado a colocar cores na tela apesar de tudo e todos, até seu próprio eu.
 
Esta é a "Escola" de Van Gogh, esta é sua herança: não importa sua capacidade ou incapacidade - solte seus demônios interiores, e pinte. Pinte - até que eles o matem.

 
 
Sarah D A Lynch
Enviado por Sarah D A Lynch em 16/08/2017
Alterado em 12/09/2017

Música: Starry, starry night - Don McLean

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